Literatura, Uncategorized

entrevista para o canal LIVRADA!

entrevista que o jornalista Yuri RA do canal LIVRADA! fez comigo dia desses na casa dele.
falamos um pouco sobre literatura, sobre meu estilo de escrita e sobre meu último livro, O Cão Mentecapto, lançado pela ENCRENCA – Literatura de Invenção em maio.
confere aí!

 

Padrão
Literatura, Uncategorized

BASQUETEBOL

são as estátuas de ninguém. esses bustos de praça são um embuste. mortos que insistem em sobreviver nas lembranças. foram os vivos que os colocaram ali. é. eu sei. paro na frente de um deles e grito você já era! ele nem dá bola. fique aí com essa sua cara de! fico quieto encarando a estátua de pedra. cara do que mesmo? sei lá. de impávido colosso. um pombo vem e faz cocô no busto. hahaha! bem feito. a titica escorre da cabeça ao peito passando pelos olhos. olha lá! lágrimas de cocô. hahaha! só que não é cocô. lembra como é o sistema defecativo nos pássaros? sistema digestório. o xixi se mistura com o cocô e vira essa papinha liquefeita que escorre e por isso não sai durinha. lembro. é a história da cloaca né? sim. a cloaca. fala de novo. o que? cloaca. cloaca. o que te lembra? nada especial. sempre que penso numa cloaca lembro das aulas de ciências da professora lurdinha e daquela menina cdf que sentava bem na frente e sempre respondia tudo o que a professora perguntava. a professora mal terminava de fazer a pergunta e ela já tava lá com o dedão em riste apontando pra cima com um sorrisinho cínico na cara se achando a última coca do deserto. às vezes me dava vontade de. do que? de beijar a boca dela. penso. de estufar ela. digo. como era o nome dela? não lembro direito. começava com d. daniela? não. desdêmona. não. deise. não. nossa! da onde você tirou desdêmona? tinha uma guria na pré escola que tinha esse nome. ela era grande e forte. empurrava a gente na balança melhor do que qualquer um. sempre quis namorar com ela por causa da sua força. acho que é com b. betina? não sei. nunca vou lembrar. era um nome diferente que só ela tinha no colégio. e o que ela tem a ver com a cloaca? não sei. o nome dela talvez. você era afim dela né? é tão nítido assim? aquele dia que ela foi visitar o colégio na feira de ciências depois de nove meses sem aparecer ela perguntou por você e você tava ensaiando a dança de educação física do final do ano. foi na feira de ciências? ela rodou o colégio inteiro atrás de você. ela me viu. acenou lá do parapeito na frente da nossa sala. eu tava lá embaixo e a vi passando. e porque você não foi lá? por causa da cloaca dentro da minha cabeça. hahaha! ela riu. eu ri. ela tirou mais um cigarro da bolsa e fumamos. dois tragos de cada um. quem acende não pode terminar. ok. terminei o cigarro e mirei a bituca no lixo. quer apostar que eu acerto? aposto um cigarro que você acerta. ok. adoro sua positividade. lá vai. ele arremessa a bituca que voa em direção à cesta quando o cronômetro é zerado e soa a campainha PÉÉÉÉÉ!!! a torcida está apreensiva. o chicago perde por um ponto e se o arremesso cair ele ultrapassa o los angeles e leva o título nacional. silêncio nesse momento. a apreensão toma conta de todos os presentes no estádio. a cidade se cala diante da iminência do primeiro título. a bituca descreve uma parábola perfeita sobrevoando a calçada. os carros passando devagar e o barulho da cantoria dos pássaros e o farfalhar das árvores fazem o pano de fundo para uma situação ímpar que em breve deve se consumar no maior fato histórico de chicago. meu coração dispara. estou prestes a acertar um arremesso dessa distância pela primeira vez. talvez esse seja meu primeiro título. até alguns anos ninguém acreditava que isso seria possível. todos duvidaram da escolha do menino franzino e magrinho que veio do interior para tentar a vida no clube da capital. a bituca gira e gira e gira espiralando no ar feito um marimbondo de fogo e PLAW! dá bem no aro do latão de lixo fazendo um barulhão igual ao do tambor do cara da orquestra que a gente foi ver semana passada. acho que era vivaldi. as quatro estações. nessa hora começo a achar que tudo está perdido e que vou ter de voltar pro interior onde meu pai me aguarda pra trabalhar na sua loja. ele sempre encheu o saco pra que eu não fosse embora mas minha mãe apostou em mim e ainda me deu uma grana pra passagem e pra uns meses na quiçaça que eu divido com mais três até hoje. o pai tem uma vendinha de bugigangas lá na cidade. é meio padaria meio banca de revista meio mercearia meio farmácia. é meio de um tudo. o vô pai do meu pai se orgulhava tanto dessa loja que dizia que daqui ninguém sai de mãos abanando! era o slogan dele. tinha até numa camiseta e num boné que ele usava de vez em quando. mas isso foi há muito tempo. o pai não entende que as coisas passam e que é preciso renovar. ele quer seguir como o pai dele e quer que eu siga junto. só que toda vez que eu entro naquela loja tenho a impressão de que meu vô se atirou em um rio com uma corrente amarada aos pés com um bola de ferro no colo e que essa corrente está amarrada aos pés do meu pai e que ele vai se jogar no mesmo rio e quer a qualquer custo que eu me atire com ele. sempre que entro na loja e olho pra baixo vejo a tal corrente nos meus pés então saio correndo pros braços da minha mãe que com um toque angelical faz tudo desaparecer. caralho! todo mundo já usa um computador pra anotar as coisas e o pai ainda tem aqueles cadernos velhos de capa de couro pra anotar as vendas! é foda vê-lo sentado lá com aquele bonezinho e aquela camiseta com seus lápis e borrachas e todo mundo andando por aí com disquetes nas mãos. a bituca sobe transversal 90° ao aro e como se deusas do basquete estivessem nos assistindo nesse momento a bituca desce na vertical tocando o aro novamente e um vento que passava por ali assim meio que despercebidamente toca de leve o toco de cigarro que meio sem saber o que fazer é forçado a cair para dentro do abissal buraco do saco preto. fatídica e maravilhosamente podemos agora gritar de alegria e abraçar qualquer pessoa que estiver passando na rua. vai! grita! NÓS SOMOS CAMPEÕES! o chicago bulls vence o los angeles lakers pela primeira vez. nos abraçamos comemorando muito a vitória do nosso time do coração e eu acabo ganhando um beijo na boca. ela me olha espantada. desculpa. digo. quer dizer. penso. quer dizer. estou confuso. então fico quieto. mentira. falo sem parar um monte de asneiras. ela sai correndo. volta aqui! me beija mais! penso. fico parado no meio da rua sem entender e sem saber o que dizer. lá da esquina ela grita parabéns! adorei ser campeã com você. meu coração dispara. tenho uma parada cardíaca e morro. mentira. mas é como se fosse.  começo a correr sem direção pelas ruas ali do bairro. corro corro corro até que as pernas se jogam num gramado e eu caio de costas e vejo estrelas sorrindo pra mim. grito. não. não grito. é tarde. levanto e saio caminhando de volta pra casa. ela me beijou. sim! ela te beijou! porque se ela não tivesse feito isso talvez você nunca fizesse não é mesmo? é verdade. rimos. um velho sai na janela e pede silêncio. vai tomar no seu cu seu velho filho da puta! não sei porque gritei isso. saio rindo e correndo de volta até chegar em casa. me jogo no sofá ainda atordoado com o beijo que ela me deu. devagarinho fico respirando o cheiro do perfume dela que ainda está no meu rosto e no meu pescoço onde ela agarrou. queria conseguir guardar esse cheiro pra sempre. cheiro ele o máximo que posso até que ele some. ligo a tv e o chicago está comemorando seu primeiro título de basquete.

Padrão
Café, Literatura

Prêmio CLAP

Acabou de sair o resultado do Prêmio CLAP – PREMIOS INTERNACIONALES DE DISEÑO INDUSTRIAL Y DISEÑO GRÁFICO. E a Arte & Letra e a Encrenca – Literatura de Invenção foram premiadas em 2 categorias!!!

– 1° lugar na categoria MELHOR ILUSTRAÇÃO APLICADA A PEÇA PUBLICITÁRIA com os cartazes dos cafés da Arte & Letra, com ilustrações do Frede Tizzot.
– E na categoria MELHOR PROJETO GRÁFICO DE LIVRO DE TEXTO, o livro Arquitetura do Mofo (ENCRENCA / 2015), do Alexandre Gil França, também com projeto do Frede Tizzot, entrou para a Seleção Clap dos 4 melhores projetos, ficando em 2º lugar.

Veja mais sobre o prêmio aqui: http://premiosclap.org/ganadores-2016

Capa e Projeto Gráfico de Frede Tizzot

Capa e Projeto Gráfico de Frede Tizzot

 

Ilustrações de Frede Tizzot

Ilustrações de Frede Tizzot

Padrão
Literatura, Uncategorized

FESTA AMERICANA II

ela é tão linda que dá vergonha de ficar olhando. o zé não teve vergonha. chegou dançou e quando todos viram já estavam se beijando. sempre acho que foi uma oportunidade perdida. podia ter sido eu. podia ter sido eu! claro que podia. porque eu não fui lá e. só que não. cada tentativa minha de mover um músculo é seguida de um negócio que dá nas pernas que não sei explicar. trava tudo. os olhos embaçam. o sangue sobe e encharca as bochechas. fico roxo. às vezes a piazada fala que sou muito envergonhado. deve ser isso. queria conseguir dançar com ela. sair do meu canto e chegar ali nas cadeiras e dizer quer dançar? só de pensar nisso já dá tontura. ela vai dizer não. porque diria sim? sou sempre o mais novo da festa. o mais baixinho. o mais fracote. li uma matéria no jornal que diz que as mulheres gostam de homens mais velhos que elas por causa da maturidade. uma menina de doze anos equivale a um cara de dezesseis. era isso que a matéria dizia. vai demorar um monte preu dançar com a helô. acho que a gente já vai ter saído do colégio e nunca mais vai se ver e aí tudo não vai passar de uma lembrança. será que vai ser sempre assim? será que um dia eu vou conseguir? plaw! um tapa na minha cabeça me interrompe. sai da frente piá! diz o grandão. no meu caso são todos grandões. vai se foder idiota! penso. se eu dissesse ele ia me estufar e eu ainda ia apanhar em casa por chegar de olho roxo. então contorço a cara mordo a mandíbula travo os dentes e fico quieto. os piás passam por mim em direção à varanda pra fumar escondido. nem tão escondido. de alguma forma eles querem que as pessoas os vejam. mas só as pessoas certas. não adianta acender um cigarro e a tua mãe te pegar fumando escondido ou com os dedos amarelados com aquele cheiro característico de cigarro que impregna até a alma de quem fuma. se a mãe me ver fumando é pau na certa. a pessoa que tem de ver você fumando tem que ter o desejo de fumar também. tem de achar isso uma coisa fantástica. uma tarefa árdua. um desafio pessoal. tipo nossa! olha lá! o fulano tá fumando. ai! o fulano é demais! queria estar com ele. ser ele. de alguma forma me relacionar com ele. eu que fico de longe sempre escuto as meninas falando isso. é o que os piás querem. eu não tenho coragem. mentira. um dia peguei uma bituca que tava no cinzeiro lá de casa e imitei o jeito que os amigos dos meus pais fazem. foi uma merda. parecia que eu tinha engolido um negócio tipo um sei lá. nunca tinha provado um bagulho tão ruim na minha vida. a mulher da propaganda da tv diz que quem fuma passa pra maconha cocaína perde os amigos crack vende tudo a família desmantela roubo cadeia prostituição roubo tráfico e aí sai sangue e a pessoa morre. não sei se ela tá falando comigo nem sei se é verdade. os olhos dela brilhando enquanto fala são tão verdadeiros que fica difícil de duvidar. provavelmente a moça teve uma experiência ruim na família ou perdeu uma pessoa querida pras drogas ou ela mesma foi usuária e se fodeu e aí foi lá na tv falar sobre a sua experiência pra passar uma frase de carinho e de apoio aos que precisam de ajuda. sim. foi isso sim. a tv não mente. mudo de canal e o cara montado no cavalo indo em direção ao por do sol olha pra mim e diz só alguns homens sabem que a beleza dos cavalos selvagens está na sua liberdade. venha! ele continua. levanto do sofá e vou em direção à tv. estou indo. os piás apagam o cigarro na grade que separa a varanda do gramado do jardim do condomínio e voltam pra festa. vem com eles um cheirão de cigarro que faz com todos fiquem olhando e sussurrando frases de apoio e de crítica e de amor e de espanto. eles caminham com o peito estufado como se fossem os heróis da juventude. e são. toda a piazada ri com o canto dos lábios e as meninas acham eles o máximo. um deles vai até a vitrola e tira o disco que tá tocando sem perguntar pra ninguém se ele pode fazer isso. só pega o disco que risca fazendo um barulhão e larga o vinil ali mesmo do lado da vitrola. de dentro da jaqueta de couro puxa um disco da sua banda favorita e bota pra tocar. dead kennedys. toda a piazada voa pra pista de dança e começa a se chutar e a se esbofetear e a gritar a letra em inglês de um jeito tão alto que fica impossível saber se alguém ali sabe ou não o que está cantando. nossa professora de inglês que é uma lóque e nem sabe inglês direito ia ficar escandalizada com essa cantoria alhures. só que ela nem sabe falar inglês direito! como ela pode não saber de uma coisa e fazer críticas aos outros? esses tempos ela ficou discutindo com uma aluna que o nome michael se pronunciava mixael. o que? ela falou isso mesmo? a professora falando errado um troço tão básico? sim! o x soando ch como na palavra xixi ao invés de maicou como nos filmes legendados que a gente vê. a menina levantou o dedo. professora? pois não. não seria maicou ao invés de mixael? não! de onde você tirou isso? sei lá professora. pelo menos nos filmes que a gente vê no cinema sempre que aparece um michael a gente vê as personagens falando maicou e não mixael. quem é a professora aqui? a senhora. então é mixael! quando você crescer e for dona do seu nariz você fala como você achar melhor. por enquanto quem manda aqui sou eu e vocês só obedecem. falou e saiu da sala. ficou todo mundo sem entender nada. meio afetada a professora. mas o que a gente podia fazer? na semana seguinte ela não apareceu. e na outra também não. era a segunda aula de segunda feira. a primeira era religião que nunca teve então na segunda feira a gente só começava na terceira aula quase na hora do recreio. e tudo isso por causa do tal do maicou? aham. credo! o diretor disse que ela pediu licença e só volta ano que vem. que massa! pelo menos agora dá tempo de sobra pra ir lá nas lojas americanas e pegar uns chocolates e depois na mesbla pras encomendas das gurias. tô fazendo uma grana com canetas doze cores. cada uma dá pra vender por deizão. se você for ver lá na loja tá vintão cada uma. e ainda tem os chocolates pra bater um rango antes de entrar no colégio. e nunca pegaram vocês? putz! uma vez quase. mas aí a gente saiu correndo e não deu nada. é que não é só a gente né?! cê chega lá nas americanas e tem uma galera pegando chocolate. cê tem que ser mais esperto que a galera e que os seguranças. esses dias a gente tava saindo pela saída de trás e tinha dois piás esvaziando os bolsos pro segurança. a gente ficou lá do outro lado da rua vendo e não parava de sair chocolate dos piás. hahaha! os dois pareciam uma fábrica de chocolates. saía doce dos bolsos da mochila das meias da cintura da cueca. sério!? o segurança até tirou a camiseta pra fora e fez tipo uma bolsa pra ir colocando os chocolates dos piás. foi muito engraçado. os piás tavam se cagando nas calças de os seguranças contarem pras mães deles. imagina se a minha mãe tem de vir aqui buscar a gente?! nossa! é tiro porrada e bomba! acho que eu ia ficar uma semana apanhando. então agora tá sujo ir lá? tá. tá bem sujo. a piazada tava até combinando de dar um tempo com as paradas ali no centro. acaba a música e o piá vai lá e muda o disco de lado. começa tudo de novo. porrada soco chute. não vai entrar na roda? nem fodendo. se eu entrar aí eles me quebram. pela janela vejo o zé passar com a helô. vazaram da festa. essa piazada chega e muda as músicas e aí para de tocar as lentas românticas e todo mundo vaza. peguei mais uma lata de coca e fui lá pra fora. a piazada já estava se organizando pra ir embora quando o síndico do prédio desceu puto da vida. TODO MUNDO PRA FORA! vixi. fodeu. na terceira vez que ele repetiu a voz de comando chegou duas viaturas da pm. agora sim fodeu. a piazada que tinha cigarro maconha e drinks saiu correndo e os canas foram atrás deles. eu que estava ali de boa com mais uns amigos ficamos quietos e fomos saindo sem acontecer nada com a gente. pegaram três. o resto fugiu. nesse momento como se o natal tivesse chegado de repente e as luzes começassem a piscar e eu ganhasse o presente dos meus sonhos sinto uma gota de alegria percorrer meu corpo inteiro. consigo sorrir de verdade. olho pros meus amigos e eles estão tendo a mesma reação que eu. pela primeira vez na vida vi vantagem em não ser notado. na cabeça de cada um de nós começa a tocar uma música favorita e a gente sai correndo no meio da rua e começa dançar freneticamente embalados por uma euforia extasiante e de repente todos se abraçam e é maravilhoso sentir que pela primeira vez o mundo não é tão real assim. subimos até o ponto de ônibus do madrugueiro já suados de tanta correria e aí quatro malacos que vinham descendo a rua param e perguntam alguém tem horas? essa é a deixa. o código secreto dos malacos para roubar tudo o que a piazada do nosso tamanho tem. levaram o que tinha restado da noite. a grana pra três passagens e três pares de tênis. e ainda levaram a mochila do meu amigo. foda. terceiro assalto em um ano. já perdi um monte de coisa. teve uma  vez que foram dois assaltos no mesmo dia. uma bike em um e o boné em outro. a galera fala que eu sou zicado. acho que os malacos gostam de mim. deve ser essa tua cara de idiota. teu cu! as duas viaturas ali a cinquenta metros da gente tão preocupada com a bagunça da festa que não viram que estávamos sendo assaltados. voltamos pra frente do prédio pra prestar queixa e nem deram bola pra gente. tentamos falar com um policial e nada. tentamos com outro e sai daqui piazada! vão pra casa! é o melhor que vocês fazem. de repente todo mundo sumiu dali. as viaturas se foram. o síndico locão lacrou o portão do prédio com corrente e cadeado pra ninguém entrar ou sair e subiu pra casa dele. a galera já tinha saído correndo. só restou nós três. podia estar chovendo né? hahaha! rimos e fomos subindo descalços até em casa discutindo se a nossa capacidade de aguentar as porradas é maior do que a de dar porradas. conclusão? quem saiu acompanhado da festa não foi a gente.

Padrão
Literatura

PEIXES NO AQUÁRIO

esse texto eu publiquei originalmente no meu segundo livro (O ESCULPIDOR DE NUVENS / ENCRENCA – Literatura de Invenção / 2015) e foi dedicado a uma mulher, minha querida amiga Martina Sohn Fischer.

postei de novo para homenagear o movimento NI UNA MENOS e também como uma forma de protesto pelo assassinato brutal ocorrido na argentina que tirou a vida da jovem Lucía Pérez.

#niunamenos
http://niunamenos.com.ar/

existe uma menina que mora em mim. uma menina que mora em mim desde que eu era uma criança. uma criança de cinco seis quatro anos. bem pequeno. uma menina virgem. uma menina assim como eu. de pele bege meio adoentada e olhos fundos e barriga d’água e pés descalços de marcar quina. pés de bailarina. e também meio ingênua de algumas coisas. e também delicada. e despenteada. não maltrapilha. só despenteada. porque não gostamos de nos pentear e nem de passar roupa. isso é coisa de gente velha. uma menina virgem de doze treze anos que tem muitas vontades e desejos. e que gosta de sentar e ouvir o vento só pra zombar de quem não consegue. e de conversar com os invisíveis. e de contar pra todo mundo as maiores mentiras. porque a gente acredita que se todo mundo acreditar não vai mais ser mentira. e que gosta de espiar buracos de fechaduras de banheiros quando os velhos vão tomar banho pra ver como vamos ficar quando nós ficarmos velhos. achamos que vamos ficar um pouco melhor que nossos pais e mães e avós. ela sempre diz que somos muito melhores que eles porque usamos a imaginação e eles só sabem andar pra lá e pra cá e mexer os braços e tremer as pernas. nossos pais são bonecos engraçados que se movem bastante pela casa no final do dia. ela tem uma voz que sempre faz tremer meu estômago. a voz dela é muito suave. mas ela fala muito pouco. é uma voz que eu consigo ver e que tem cheiro e que sempre me lembra a cor amarela porque é tão perfumada quanto um abacaxi. tem vezes que quando ela abre a boca no quarto pra me mostrar uma palavra nova que ela aprendeu na rua eu consigo sentir o perfume até lá da sala de televisão. é bem bom e dá vontade de comer. sempre que ela aparece ela vem do meu lado esquerdo meio de cima. porque eu estou sempre sentado e ela de pé. às vezes ela vem do direito. só às vezes. eu acho ela muito linda. e eu gosto muito dela porque ela não faz nenhuma força em mim. nenhuma força de mãe demônio ou de namorada ciumenta ou de mulher mandona. fica parada do meu lado e conversamos algumas horas por semana. às vezes nos olhamos igual olhamos os peixes no aquário do meu pai. sem fazer aquilo com a boca que é engraçado. hoje ela quer ser uma sereia. e eu quero ser uma truta. somos bem humorados quando estamos juntos e jogamos. jogamos qualquer coisa. inventamos os jogos e jogamos. só isso. o de hoje era pegar pedras no chão e contar quantos brilhos cada uma tinha quando a gente colocava elas no sol do meio dia. quem conseguisse catar mais brilhos ganhava. ela gosta de mim porque sei escrever e ela não. e juntos fazemos cartas que gostamos de guardar em nossas cabeças e depois esquecer. igual agora. cartas de esquecimento. porque não gostamos de lembrar das coisas quando estamos juntos. só vale inventar. e combinamos de um sempre aparecer para o outro até morrer.

niunamenos

Padrão
Café, Cinema, Literatura, Música, Teatro, Uncategorized

CARTA CAPITAL nº923

perfil para a revista CartaCapital de out/2016 escrito pelo jornalista Rodrigo Casarin.
valeu man!

Carta Capital 593 / texto de Rodrigo Casarin / fotos de Olívia D'Agnoluzzo

Carta Capital 923 / texto de Rodrigo Casarin / fotos de Olívia D’Agnoluzzo

Padrão