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NUS NO ENGARRAFAMENTO

olho pra frente e não vejo grandes perspectivas de sucesso. tudo não passa de um grande engarrafamento num calor do caralho. um enorme buzinaço e pessoas com os vidros dos carros abertos e os braços pra fora das janelas abanando tentáculos. eu eu eu! igual quando se corta o rabinho de uma lagartixa. eu eu eu! igual quando se corta a cabeça de uma galinha. eu eu eu! igual na tv o pânico dos animais que são mortos e ainda ficam se mexendo. é verdade. você diz. tudo não passa de um grande engarrafamento num calor do caralho. um enorme buzinaço e pessoas com os vidros dos carros abertos e os braços pra fora das janelas abanando tentáculos. eu eu eu! igual quando se corta o rabinho de uma lagartixa. eu eu eu! igual quando se corta a cabeça de uma galinha. eu eu eu! igual na tv o pânico dos animais que são mortos e ainda ficam se mexendo. estamos ligados no modo pânico. aos berros ninguém se ouve. aos berros ninguém se quer. ninguém realmente se quer. é o bando do me dá me dá. e do me dá mais. e eu e você parados aqui no fundo. aqui atrás nus no fundão observando. voyeurizando com nossos óculos escuros de raio-x. sentados em nuvens. olhando tudo de dentro pra fora. escarafunchando. vixi mano! olha lá! o que? você aponta. olho. dentro de um dos carros um homem sente uma pontada na cabeça. aperta os olhos contrai a mandíbula passa a mão. é a enxaqueca chegando. você diz. ele passa a mão no estômago e na nuca. vai ao porta luvas. nada. só manuais e papel higiênico e uma foto da filha e da esposa. merda! ele pensa. sem remédios ele entra em desespero. a vista começa a embaçar. o estômago uma bomba relógio. a enxaqueca avisa que está chegando e ele não tem um remedinho pra aliviar a tensão. o homem olha pra cima. afrouxa a gravata. limpa o suor da testa com a manga da camisa nova que acabou de ganhar da amante depois do banho no motelzinho de sempre pra comemorar os três anos de relacionamento. feliz três anos meu amor. ela diz. feliz três anos. ele concorda com seu sorriso de galã de filme. champanhota canapés posição nova que ele viu na internet e no fim ele diz que vai ter uma vão continuar suas vidinhas assim que o semáforo abrir. você continua. já gozadas e aliviadas pelo prazer que toda aquela confusão causou com o guardinha espancador e o tiozão do extintor que corria pela vicente machado manchando a galera de branco fazendo nevar em pleno verão as pessoas vão descer a avenida seguindo o curso natural das coisas que é o que deve ser feito em momentos de muito calor. a galera não tá nem aí. às vezes até tá mas dá uma preguiça da porra se meter com os outros. se o cara tá a fim de apavorar geral com as piras dele quem somos nós pra dizer que ele tá errado? hehe! rimos uma risadinha miúda. risadinha chapada de olhinhos semi cerrados. hihihi. tá muito quente. é verdade. quer fumar mais um? bóra. aumenta o som.

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o conto NUS NO ENGARRAFAMENTO faz parte do livro O Cão Mentecapto (ENCRENCA / 2017) e pode ser encontrado no site da editora com 20% de desconto: https://www.arteeletra.com.br/encrenca

 

 

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MICÉLIO

quando entrei no quarto veio um cheiro ruim de. não sei. um cheiro ruim de coisa morta. de coisa morrendo. dos negócios que a minha tia irmã da minha mãe deixa na janela fermentando. a cortina fechada e a janela também. porque será? penso. que lugar claustrofóbico. o que é claustrofóbico? não tem como uma pessoa viver aqui. a porta que dá pro outro quarto está meio aberta e o barulho do rádio mal sintonizado incomoda pra caralho com zunidos e chiados que parecem uma nuvem de gafanhotos perfurando nossas cabeças. a vó mãe do meu pai deixa o rádio ligado o dia inteiro numa rádio evangélica que ela adora com um copo de água na frente pra receber as orações do pastor três vezes por dia. tem uma bíblia em cima do copo que fica aberta sempre na página que o pastor manda. às oito da manhã tem a primeira missa e aí acontece a benção da água e ela bebe tudo e depois enche o copo de novo. depois de tarde tem também e aí de noite antes de dormir. ela sempre diz o corpo e a alma ficam forte por causa dessa água abençoada. olha teu vô! ela diz sendo sarcástica e ao mesmo tempo com pena. nunca foi na igreja comigo. não bebe. não fuma. sempre trabalhou direito e ó como ele tá. deus que me perdoe sofrer desse jeito. ela diz fazendo o sinal da cruz. se bebesse a minha água. humpf! bufa e se cala por um instante. parece que por um segundo alguma coisa falou com ela. seus olhos se fecham. ela respira fundo. e depois diz. tá na hora do remédio. ela resmunga e vai até a cozinha e começa a mexer nas coisas e abrir e fechar portas. volto pro quarto do lado e lá está meu vô pai do meu pai. a melhor pessoa do mundo. o cara mais legal da terra. chego bem perto dele. pego sua mão. cadê seu gorro? ele pergunta. tá lavando. minto. quando você vem dormir de novo com o vô? a mãe disse que amanhã é sábado e que eu posso vir dormir com você. minto de novo. mas foi a mãe que mentiu pra mim e eu só passei a mentira adiante. mentimos juntos. somos uma família de mentirosos. tudo bem. ele diz quase apagando. o vô parece a nossa tv quando volta a luz depois de uma tempestade. fica indo e vindo. indo e vindo. indo e vindo. acompanho ele navegando mais um pouco. o senhor tem câncer. diz o médico. e já está em estágio avançado. o vô pai do meu pai começou a ter dificuldades pra mijar e foi no médico. aí fez um exame dois exames três quatro e. já tomou a bexiga e está indo em direção ao rim. a vó mãe do meu pai nem se mexeu na cadeira. até os pássaros e as árvores pararam por um tempo. mas não foram os pássaros e as árvores que pararam. foi o vento. o vô olhou pela janela e percebeu que os cabelos das pessoas não estavam mais se mexendo e que ficou muito quente de repente. então ele abriu a janela e encostou a mão na terra e um micélio disse a ele que no litoral as pessoas estão sofrendo sem a brisa que vem do mar e que ele deveria decidir o que fazer antes que todos ficassem com muito calor e começassem a morrer por falta de água. então ele coçou a testa e disse humm. sentou de novo na cadeira do consultório e o que eu devo fazer doutor? perguntou ao médico com a voz meio embargada sabendo da resposta e sabendo o que teria de dizer a esposa e aos filhos e aos netos. o vô nunca foi de ir ao médico. ele gostava mesmo era da terra e dos bichos. sempre cagou pra essa tal de medicina ocidental e cultivava a própria comida. aí veio uma dor horrível pra mijar e a vó encheu tanto o saco dele que ele foi no médico. câncer. ele ficou estarrecido por um milésimo de segundo. depois passou. foi pra casa. reuniu todo mundo ao redor de uma fogueira tenho câncer e morrerei logo. levantou e foi pra dentro de casa. ficou todo mundo com os olhos arregalados. eles só tiveram filhos homens e essa coisa de homem não chorar fez com que todos ficassem apenas de olhos arregalados. o pai que é o mais sentimental e romântico de todos levantou correndo e foi lá pra dentro falar com o pai dele e o vô estava bem de boa vendo o noticiário. teu time não ganha uma! hahaha! disse oferecendo uma xícara de chá ao meu pai. o pai ficou quieto. a vó entrou logo atrás. oito horas. vou beber minha água abençoada. por causa dela não fico doente. humpf! já teu pai… lá de dentro dava pra ouvir o pastor aos berros abençoando a água da vó. o pai foi lá pra fora se despedir dos irmãos e aí fomos pra casa. o vô morreu um ano depois. depois de voltar do enterro o pai foi dar uma volta pelo jardim do pai dele porque o vô não deixava ninguém entrar lá e encontrou no meio de uns pés de tomate alguns cogumelos. o pai riu. colocou um na boca e. deixa pra lá. jogou na terra de novo. não comeu e nunca contou pra ninguém. e nem tinha o que contar porque uma semana depois a vó foi morar num outro bairro e a casa que era alugada foi abaixo. veio uma construtora que quebrou tudo e fez um prédio. aqui é assim. disse meu pai olhando um trator entrar no terreno. se não vira igreja vira estacionamento ou prédio. virou prédio. uma vez o vô me contou uma história sobre um tecido mágico que recobre a terra inteira e que vez ou outra sai com seu periscópio à procura de amigos. ele disse que se um dia eu topasse com um que guardasse ele com carinho porque a nossa vida depende dele. no final o desejo do vô de ser cremado e enterrado em seu jardim obviamente não foi respeitado pela vó e hoje o que restou dele / e dela também / está ali no jazigo 33 do cemitério água verde. tomamos um chá juntos de vez em quando.

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MEU MELHOR AMIGO

pela janela vejo o pablo e o filho da vizinha do oitavo andar. o pablo empurra o piá da bicicleta. o piá se estatela no chão. rala o joelho direito o cotovelo esquerdo e a panturrilha das duas pernas. não sei como ele conseguiu isso. foi uma façanha a queda do piá. bateu de um lado depois quicou do outro e deu uma arrastada de costas. coisa de ninja o tombo dele. o pablo pega a bike e sai pedalando. o piá levanta rápido e sai correndo atrás. o pablo no meio dos carros na rua. agora ele tem uma bicicleta. a mãe do pablo mora no mesmo prédio que eu. no décimo andar. ela jurou pra minha mãe que o pablo quando crescer será o maior jogador de futebol de todos os tempos. o pai do pablo é argentino e nunca veio visitar a família. a mãe do pablo jura que ele ainda vem e que se não veio ainda é porque deve estar muito ocupado com a bolsa de ações. o pai do pablo é corretor na bolsa. meu pai diz que ele é agiota. não importa. saio da janela. vou lá com os piás. abro a porta de casa e dou de cara com a velha do apartamento da frente. ela me fulmina com o olhar. essa velha foi líder de um destacamento nazista feminino quando a alemanha tinha planos de invadir o brasil. se os nazis tivessem chegado até o brasil ela ia ser a chefe das professoras que iam ensinar às crianças o manual do nazistinha. uma vez vi pela porta do apartamento dela umas armas e umas fotos de uns caras fardados. até montamos uma força tarefa pra invadir o apartamento dela de madrugada mas fomos dissuadidos pelo nosso porteiro o seu albano. queria que essa velha derretesse igual cera de vela. desejei do fundo do meu coração. fechei os olhos e quando eu abri PLIM! a velha derreteu na minha frente. é sério! vou contar pra piazada na escola e eles não vão acreditar. a velha é sozinha e ninguém vai sentir falta dela. pelo reflexo da porta do elevador minha imagem refletida pergunta a mim mesmo de que adianta ter o poder de derreter as pessoas se você só pode usar contra pessoas que não vão fazer a mínima falta e assim ninguém vai acreditar que você tem esse poder? a porta do elevador abre. vazio. entro. aperto o térreo. o elevador desce. essa parte é chata então vou voltar lá pra cima pra falar do pablo. ele é um piá legal. ele sabe fazer malabarismos com limões e sabe empinar a bike e andar de uma roda por uma quadra inteira e sabe assoviar de três jeitos diferentes e faz um negócio com a sobrancelha que ninguém na rua consegue. alguns chamam ele de pablo el super dotado. acho meio palha dizer isso só porque ele consegue fazer coisas que ninguém consegue. a mãe dele diz que todos os piás da rua sentem inveja do pablo. que todos querem ser como o pablo. que o pablo é o queridinho dela. que o pablo é sua obra prima. que o pablo sabe fazer as coisas que a gente não sabe porque o pai do pablo ensinou. espera aí! o pablo não tem pai PLAW! bem na hora que ela se gabava do próprio filho e falava essas asneiras eu achei que tinha pensado essa fala mas na verdade eu falei sem saber que tava falando e aí PLÓF! levei uma bolsada na orelha. da onde saiu essa lóque?! tinha alguma coisa dentro da bolsa. uma arma talvez. porque bateu na minha cabeça e ficou uma meia hora zunindo. tipo o sino das sete que é aquele que soa bem forte e bem alto porque é troca de turno de padre e o padre que entra às sete é forte e porrudo feito um cavalo. ele parece mais o segurança da igreja do que o padre da noite. meu pai só se confessa com ele. minha mãe não. minha mãe não confessa. acha tudo isso uma bosta. a mãe diz que essa coisa de confessar é igual à psicanálise o que é psicanálise? quando eu perguntei ela bufou igual ela bufa pro meu pai AFF! ela deve achar que tem um pouco do meu pai em mim. mas tem né! metade metade. fifty fifty disse a professora de inglês quando eu perguntei pra ela em português porque que a gente se parece tanto com nossos pais? a turma riu. ela disse que a professora de ciências poderia responder melhor a minha pergunta mas a professora de ciências é o professor de ciências. e o nome dele é carlos. não dá pra fazer uma pergunta dessa prum professor homem que se chama carlos. o apelido dele deve ser carlão. na rua dele a galera deve chamar ele de carlão. ele é grande. se fosse pequeno chamariam de carlinhos. mas é carlão. e não dá pra perguntar prum cara chamado carlão uma coisa dessas. então perguntei pra minha mãe que mandou perguntar pro meu pai que tava ocupado vendo o jogo do coxa e mandou eu perguntar pra professora aí eu expliquei pra ele que a professora era professor e no meio da minha explicação saiu o gol do coxa GOOOOL! do lateral índio. ele não é índio. só parece. o nome dele que é índio. ele quase nunca faz gol então o pai ficou louco de alegria e a cerveja dele foi parar no chão e a mãe ouvindo a barulheira veio ver o que aconteceu e o quebra pau começou de novo e eu fiquei sem saber pra quem perguntar porque a gente se parece tanto com nossos pais? penso. a solução foi ir ao confessionário da noite ver o padre cavalo. cheguei lá e tinha uma fila enorme que dobrava a paróquia. todo mundo com seu tercinho na mão rezando as rezas que o padre tinha mandado rezar. fui furando a fila. botei a mão na barriga fingindo dor e fazendo cara de coitado e logo cheguei na frente do confessionário. tinha uma velha saindo lá de dentro. uma outra velha mais velha que a velha de cera. essa velha mora no primeiro andar do meu prédio porque não pode pegar elevador por causa da vertigem nem subir escadas por causa da artrose. sei de tudo o que acontece no meu prédio. é só ficar meia hora fingindo que tá lendo o jornal no hall de entrada que o seu albano que é o porteiro te deixa a par de todas as coisas que acontecem. ele não conta pra mim. mas pra todo mundo que passa ele tem uma versão mais bizarra da mesma história pra contar. e a cada dia ele conta uma história nova ou uma coisa que aconteceu no prédio. às vezes ele repete. só que ele vai mudando as coisas de lugar. o nome das pessoas. as pessoas. geralmente ele começa com uma pessoa só e um acontecimento nem tão inusitado. aí ele percebe que quem tá ouvindo não tá nem aí pra história dele então ele bota mais alguém ou aumenta o acontecimento. enquanto as pessoas que vão passando não se pregam na história ele não para de mudar. é uma estratégia. até que alguém solta um risinho pra história opa! fisguei! ele pensa. aí ele vai administrando o negócio até o elevador chegar e a pessoa ir embora. então ele saca que aquela história daquele jeito funciona e guarda ela na cabeça. vai que precisa dela outra hora. e por aí vai. depois de umas quarenta pessoas ele já tem algo muito mais elaborado do que aquela historinha mequetrefe do começo. o que era um carro mal estacionado na garagem de um vizinho já virou um acidente de trânsito com vítimas fatais e trilha sonora. esses tempos ele descobriu que botando um som pra rolar durante a contação as pessoas se interessam mais. e não é só isso! ele sacou que dá pra aumentar e diminuir a música durante a narração. aí ele descambou pra efeitos especiais e iluminação. comprou um dimer pra controlar a luz do balcão e um controle pra subir e descer o volume do toca fitas que fica mocado embaixo do balcão. acho que se a gente filmasse ia dar uma grana. só que ele é analfabeto. não sabe nem preencher o nome. quando chega alguma correspondência ou encomenda do correio que tem que assinar ele puxa a almofadinha de carimbo e PLAW! mete o dedão. no começo os caras dos correios encrencaram com ele dizendo que não sei o que e não sei que lá e aí sacaram qual era a do seu albano e deixaram pra lá. o cara é gente boa! não vão lá encrencar com ele por causa de uma assinatura! disse o chefe dos entregadores. aí ficou tudo bem. menos uma vez que a velha do primeiro andar reclamou lá de um troço que ela recebeu errado e que tinha o dedão do seu albano no papel mas aí não sei o que e não sei que lá e ficou tudo bem. nem vale a pena falar disso porque o seu albano foi afastado e teve de tomar remédio pra cabeça. acho que foi depois do remédio que ele começou com essa história de contar histórias. ele disse que vinha a pé sempre com um amigo dele. aí um dia eu segui ele e não tinha ninguém. foi bem na época que tava passando direto na tv um filme sobre um cara que inventou umas coisas e todo mundo no começo chamava ele de gênio só que de repente todo mundo começou a chamar ele de louco porque ele batia na família. na hora pensei que o seu albano era louco. mas aí veio essas histórias no hall de entrada do prédio e eu pensei o seu albano é um gênio! então fiquei mais amigo dele. ficamos tão bróders que minha mãe deixava eu trazer um pedaço de torta pra ele e ele sempre separava o caderno de esportes pra mim sem eu pedir. é que um dia ele me viu entrando no prédio com a camisa do atlético e sussurrou pra mim um pedaço do hino do time enquanto eu esperava o elevador. quando olhei pra ele seus olhos já estavam grudados no jornal. ele quis que eu ouvisse mas não quis mostrar que tinha dito. era o nosso pacto. agora eu tinha um segredo com o seu albano. ele era meu melhor amigo. e por isso contei só pra ele do dia que eu derreti a velha que morava na frente do meu apartamento e é claro que ele sendo meu amigo de verdade porque tínhamos conversado por sussurros acreditou e acrescentou mais um detalhe à minha história revelando que ele viu tudo pelas câmeras e que tava tudo filmado mas que ele deletou pra que ninguém além da gente soubesse o que tinha acontecido com a velha. fiquei tão emocionado que não contei pra mais ninguém a nossa história. isso é que é amigo.

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Heróis são como nuvens

o cão capa frente

por Luigi Ricciardi para ACRÓPOLE REVISITADA


Otavio Linhares é grata surpresa no meio literário, desses escritores de estilo próprio, nada forjado artificialmente, destilando uma literatura por vezes engraçada, por vezes triste, por meio de um olhar peculiar, por vezes esquecido na literatura nacional.

Curitiba é uma das grandes cenas literárias brasileiras. É de lá que vem o escritor e o livro de contos “O cão mentecapto”, que tem a capital paranaense como cenário e um trabalho estético que abole vírgulas e letras maiúsculas. É publicado também por uma das editoras mais interessantes nesse círculo de médias e pequenas: a também curitibana Arte & Letra.

Todos os contos são narrados pela ótica de personagens que transitam entre o fim da infância, a adolescência ou às portas da maioridade – alguns com fortes elementos biográficos (autoficcionais?). Sempre em primeira pessoa, as vozes são jogadas com uma força visceral nas páginas, dando uma grande naturalidade a um discurso oral, como se mais ouvíssimos as narrativas do que lêssemos.

Narrativas que são comuns na vida dos adolescentes. Vergonha de chegar na menina e chamá-la para dançar, o que faz com que os mais rápidos e destemidos conseguirem mais facilmente. Ser franzino e pequeno em um grupo de meninos maiores. O bullying na escola que “é um lugar inapropriado para quem tem menos de um metro e meio”. Brigas e necessidade de pertencer a determinado grupo. Roubar coisas pequenas em lojas de departamento. Ser assaltado por mais velhos e receber descaso da polícia. Escolher um time de futebol etc.

A falta de lógica da vida adulta é vista pelo olhar da criança, pois seu mundo tem suas próprias lógicas. Crianças que não são tão inocentes quanto pintam e que têm a mente solta a imaginarem desdobramentos para acontecimentos que fogem do seu controle. Mundo que também é povoado de tragédias, como no único conto que conta com voz feminina.

O livro pode até ser nostálgico para alguns leitores, mas é uma nostalgia não romantizada, mostrando várias facetas do ser criança/adolescente de classe média/baixa em uma cidade que oferece tantos perigos quanto sonhos.

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A INFÂNCIA MOLDADA A SOCOS

 

o cão capa frente

por Sérgio Tavares A NOVA CRÍTICA
15/05/2017


O cão mentecapto, de Otavio Linhares, é regido por uma brutalidade que se injeta pelos veios da infância.

Nos 16 contos que integram o terceiro livro do autor curitibano, os personagens se encontram em ocasiões de transformação e de (auto)estranhamento, através das quais a percepção de mundo passa por um filtro desfigurador que condiciona a violência como um meio irremissível de formação.

São crianças/adolescentes que surram e matam crianças/adolescentes, que descobrem as drogas e os fervores da puberdade, que começam a se dar conta de que os familiares adultos que os cercam não ostentam a medalha dourada do xerife ou o símbolo esplêndido do super-herói.

A noção de herói passa a obedecer a um critério suspeito. É o tio que dá um pau nos guris que tiram banca de valentões do bairro, ou os caras da escola que apavoram a todos e, mesmo assim, despertam admiração. e pensar que quem matou o piá foram os melhores do momento, lamenta o narrador do conto “Cães famintos”.

Tal comportamento, de onde sobressaem o embrutecimento precoce e a crueldade, incorpora-se naturalmente à banalidade da rotina.

É a Curitiba desoladora, que se faz aparecer justamente no que há de mais opaco, que se comunica por gírias e expressões regionais, porém um lugar que é, de uma só vez, distinto e familiar, feito por suas semelhanças e desajustes, a exemplo da ideia mirim de cidade que trazemos quando tudo se resume à rua, ao colégio, à casa do amigo.

Para dentro dela, embrenham-se os narradores que desfilam seus dramas correntes ou vão procurar, no baú de ossos, sentidos para uma existência guiada por traumas, invadida por fantasmas, sugada pela solidão. Os relatos também clamam por reconhecimentos e (auto)descobertas que, em instantes raros, são codificadas em metáforas, como visto no conto que empresta nome ao volume. o tronco é a pior parte de todas. a mais difícil de sacar fora. guarda um coração cansado e velho. depois da cabeça desencaixada tudo fica mais simples. fico com o cu e o pau. sim. o cu e o pau são importantes, conclui.

De fato, dado ao magnetismo e à naturalidade com que Linhares se expressa, surge a dúvida se o autor não estaria visitando suas memórias e as convertendo em ficção.

Sendo quase um todo do guri que odeia os almoços de domingo na casa da avó, do que adora a amiga da mãe que oferece bebida, do que frequenta as festinhas americanas, do que se entope de fandangos e coca, daquele que cabula aula para andar a esmo, fumar cigarros e desvir(ginar)tuar as filhas dos militarzões.

Linhares alcança tal fidedignidade ao se fazer observador nato do tema que conduz. O autor pratica um tratamento seco às tramas, levadas num ritmo acelerado que atropela a formalidade linguística, desrespeitando pontuações, hiperbolizando frases com o uso de onomatopeias, eliminando letras maiúsculas.

Com isso, a agressividade se emaranha pelo narrado, pela decifração da leitura, pela recorrência de um tempo morto que sempre triunfará sobre o presente.

A infância é a fase da vida da qual se sobrevive.

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Livro: O cão mentecapto
Editora: Encrenca
Avaliação: Muito Bom

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VISLUMBRES DE UMA JUVENTUDE TRANSVIADA

O Cão Mentecapto é um retrato de violências, incertezas e descobertas, traduzido em estado de turbulência

o cão capa frente

 

A raiva e a revolta. A necessidade de tomar as rédeas da própria vida, de encontrar seu lugar no mundo e de ser notado. A excitação e o deslumbramento sexual. Todos esses sentimentos que afloram na juventude aparecem puros e pungentes em O “Cão Mentecapto” (Encrenca, 2017), terceiro livro de Otavio Linhares.

A obra faz parte da Trilogia da Turbulência, como a chama o escritor Luiz Felipe Leprevost, iniciada em 2013 com “Pancrácio” e seguida pelo “Esculpidor de Nuvens”, em 2015. Essa turbulência toma forma mais concreta em “O Cão”, pois nos 16 contos acompanhamos momentos de violência e descobertas, vistas e vividas a flor da pele por adolescentes.

Narrado do ponto de vista desses jovens, a falta de vírgulas e letras maiúsculas parece reforçar essa agitação, marcada por um fluxo incessante de informações. Em diversos momentos os personagens se perdem o foco em meio a divagações, que só percebemos que é inútil – ou não – depois de se passar uns 10 minutos com a porta da geladeira escancarada.

“[…] é como se viver em sociedade fosse um eterno reclamar de coisas senão não é sociedade família escola nem nenhum tipo de aglomeração de gente. turba em polvorosa. bacana essa palavra turba. lembra burca. polvorosa também é legal. lembra pólvora. burca e pólvora. Fecho a geladeira” – página 17.

E nessa brincadeira, não é só o narrador que se perde. Esses elementos, ou a falta deles, dão personalidade ao texto, porém complicam a leitura. É um livro para ser lido com atenção – não que existam livro que não necessitem de atenção, mas mais de uma vez foi preciso voltar em algum texto para garantir que tudo tinha sido entendido.

Outro ponto marcante da obra, são os momentos de grande violência como em “Cães Famintos”, que o jovem presencia o assassinato de um colega após um espancamento que “pintou o tapete de vermelho”, ou em “Linda demais” em que a filha mata o pai com uma navalha de barbear e “o sangue fica jorrando e encharcando a sala inteira”, são relatados com certa apatia.

Essa insensibilidade dos personagens frente as adversidades tornam o impacto dos fatos narrados mais fortes. O leitor se choca duplamente: pela descrição da cena e pela passividade com que o jovem lida com as situações. Em alguns momentos essa ingenuidade frente as questões tão sérias parecem surreais demais e contrastam com a descrição de cenas que fazem parte do cotidiano de muitos jovens.

Essa relação com o real é outa ferramenta muito bem utilizada por Linhares, para cativar o leitor. Muitas passagens geram uma identificação muito forte com as memórias do tempo do colégio. Um tanto clichês, mas não menos verossímeis. As festinhas da piazada, os relacionamentos entre os populares, garotas bonitas e os desajustados, a coca com fandangos de presunto, combinação que devo concordar com o autor é “obra da criação”, são lembranças de uma época que não volta mais.

O Cão Mentecapto usa e abusa de uma linguagem desbocada e sem censura que caracteriza a juventude rebelde e transviada. Em 127 páginas Linhares nos faz rir, chocar e rememorar um universo complexo, que perde o seu brilhantismo com o olhar do adulto.

O fato de despir-se do que não presta e não serve mais, narrado no primeiro conto que dá nome ao livro, sobrando apenas “cu e pau”, fonte dos “maiores prazeres”, parece prenunciar ao leitor de que o modo de vida, escolhido e iniciado na juventude, não tem volta. E, com a imprecisão do futuro, só o que sobra é o presente.

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Resenha: O cão mentecapto

por Jonatas Brito para GARIMPO LITERÁRIO 27/05/2017


Um regresso às agruras de uma das fases mais atribuladas da vida: a adolescência. Assim defino “O cão mentecapto”, último livro do escritor curitibano Otavio Linhares, lançado esse ano pelo selo independente Encrenca – Literatura de Invenção.

Através de seus 16 contos, podemos observar como o protagonista, um adolescente na casa dos 14 anos, lida com as descobertas e, principalmente, as frustrações tão características desse estágio da vida. Sem abrir mão da ironia ácida e da indiscrição tão peculiar à idade, o narrador evidencia-nos seu cotidiano de forma colérica, violenta e destrutiva. Tais relatos são narrados em ambientes adversos. Laços familiares destruídos, a descoberta da sexualidade, a influência negativa das más amizades e o envolvimento com drogas ilícitas permeiam todos os contos.

Alguns contos são capazes de chocar o leitor pela sua agressividade, pela exposição de violência gratuita e seu efeito danoso sobre aqueles que buscam encontrar-se neste universo caótico. Outros são narrados sob o efeito alucinógeno de narcóticos. Outros revelam o esforço do narrador em enturmar-se, ser visto, sair do anonimato. Assim, em meio a devaneios pubescentes e um acelerado fluxo de consciência, Otavio Linhares concebe uma obra que, em suas poucas páginas, oferece ao seu leitor um misto de sensações e emoções.

“são as estátuas de ninguém. esses bustos de praça são um embuste. mortos que insistem em sobreviver nas lembranças. foram os vivos que os colocaram ali. é. eu sei. paro na frente de um deles e grito você já era!”

Este livro encerra o que o poeta, também curitibano, Luiz Felipe Leprevost considera como a Trilogia da Turbulência, composta pelas outras obras de Otavio Linhares: “Pancrácio“ (Encrenca, 2013) e “O esculpidor de nuvens” (Encrenca, 2015). Cada livro aborda uma fase da vida. Sua trilogia finaliza, assim, o ciclo da existência: infância, adolescência e velhice.

O autor utiliza um estilo narrativo próprio. A isenção de vírgulas e maiúsculas nas orações proporciona ao leitor uma experiência literária inédita, viva e acentuada. Apesar da linguagem típica curitibana, a compreensão da narrativa flui facilmente. “O cão mentecapto” é tenso, poético e nostálgico. É uma obra original e sem comparações. Uma prova de que, neste país, ainda há espaço para a literatura contemporânea de qualidade.

Título: O cão mentecapto
Autor: Otavio Linhares
Editora: Arte e Letra
Selo: Encrenca – Literatura de Invenção
Ano: 2017
Páginas: 128

 

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1983

para john fante
com carinho

eu ainda comemorava meu aniversário de cinco anos quando anunciaram no tele jornal a morte do john fante. era maio de 1983 e meus pais tinham recém se mudado de cidade e pela primeira vez eu entendia o que significava perder alguma coisa. todos os meus amigos tinham ficado pra trás e eu achava que era por uma quantidade de tempo emocionalmente suportável. uma hora. um dia. uma semana no máximo. tempo suficiente pras coisas não se esquecerem. pros cheiros não irem embora e principalmente pras vozes não se perderem no abismo da memória. minha tia irmã da minha mãe que sempre fala que a primeira coisa que a gente esquece são as vozes. só que foram dois anos. uma eternidade! é o que parece. tudo é pra sempre. tudo é um milhão. tudo é branco ou preto. é sempre tenho ou não tenho. pertenço ou não pertenço. teve umas pessoas ali que eu nunca mais vi na vida! que dureza. era meu primeiro aniversário longe da piazada da rua e olhando pra foto daquele dia a minha cara era um tanto mau humor que puxei da mãe e um outro tanto dor de barriga de raiva que puxei do pai. não tinha intimidade com ninguém ainda. não tinha um apelido. não sabia nada sobre aqueles rostos parados ali esperando pra que o parabéns acabasse e eles pudessem se amontoar nos doces e salgadinhos que minha mãe levou quinze minutos pra descer e comprar na padaria da esquina. as crianças não estão nem aí com você. foda-se de onde veio aquele monte de comida. o que importa é encher o bucho e dar uns berros e correr e se extropiar e se bater e se cuspir e depois ir dormir e começar tudo de novo amanhã. mal o vozeirão do meu pai chegou no muitos anos de vida já tinha um piá carcando a mão nas coxinhas e outro que também queria ter o privilégio de ser o primeiro ao mesmo tempo metendo a mão esquerda na cara dele e a direita na barriga empurrando ele e mais uma guria que estava do lado dele em cima do bolo. PLÓF! foi mesa e toalha e decoração e tudo o que a mãe tinha preparado com tanto carinho pro chão. uns riram. outros botaram a mão na frente da boca pra conter o desespero. uns até tentaram salvar uns quitutes o que acabou sendo pior do que se tivesse deixado cair no chão. eu ri. e foi a única risada que eu dei durante o dia inteiro. uma risada que ficou ecoando por anos nas paredes daquele apartamento. uma risada de escárnio. de foda-se. de eu não queria essa merda de festa com essa gente de merda que eu nem conheço. eu quero voltar pra casa! disse pra minha mãe antes de levar um tapa na cara enquanto meu pai se despedia do último convidado da festa e voltava pra sala com uma cerveja na mão até que enfim acabou! disse bufando baixinho e abrindo a lata e mandando ver num gole só partindo pra próxima em direção à varanda. eles nem se falaram. era como se um nem existisse pro outro. levei o tabefe e fui pro quarto resmungar pro travesseiro alguma vingança contra minha mãe. de madrugada depois que todo mundo foi dormir fui até a sala e liguei a tv pra ver se estava passando a sessão comédia e o repórter anunciava em caráter extraordinário e excusivo a morte do escritor norte americano john fante que aos 74 anos deixava um dos maiores legados literários do século XX e não sei o que e não sei que lá. troquei de canal. nada. de novo. nada nada. e mais uma vez e de novo até voltar pro canal do repórter que agora mostra umas pessoas chorando num cemitério. esses caras da tv gostam de mostrar as pessoas chorando né?! não gosto de morrer. penso. nunca morri então não sei se é bom. só experimentando pra saber. escuto a voz da minha mãe falando com um pedaço de torta de figo na mão. detesto figo. e já provei pra saber. vou na geladeira e tomo um gole de coca no bico só porque minha mãe odeia. arroto. ela também odeia isso. faço o sinal do hang loose na testa pra que ninguém me de um tabefe. dou mais um gole. fecho a garrafa e guardo na geladeira. fico zanzando pelo apartamento feito uma barata tonta. andar pelo apartamento à noite é bem mais estranho que de dia. as sombras ficam vivas e dá pra conversar com elas. tipo aquele vaso ali. o vento bate na planta e parece que tem um octopus dançando na parede da sala. mexo no vaso e já é outra coisa. agora parece aquela mulher do filme com os cabelos de cobras que transforma a galera em pedra. mexo de novo e deixo de um jeito que minha mãe perceba que alguém mexeu e fique bem louca amanhã esperneando e xingando e chacoalhando os braços pela casa quem mexeu no meu vaso! quem mexeu no meu vaso! na tv os programas já acabaram e fica aquela coisa que parece uma festa de formiguinhas andando pra lá e pra cá bem rápido. o barulho é igual ao da cachoeira que agora a gente tem que ir sempre porque a gente mora perto de uma cachoeira e meu pai diz que a gente tem que ir na cachoeira pra recarregar as baterias! o que ele quer dizer com isso? minha mãe odeia. acho que se ele odiasse ela ia gostar. penso. desligo a tv e vou pro quarto. deito e cubro bem os pés pra que nenhum maníaco psicopata venha me pegar e me puxar pela fenda de lava fumegante que tem debaixo da cama. fecho os olhos e aquele escritor aparece pra mim. fala umas coisas esquisitas. acordo e é de manhã. minha mãe já levantou e já tá gritando com meu pai lá na sala. quem mexeu no meu vaso! quem mexeu no meu vaso! hehe. acho massa quando a armadilha dá certo. acho um saco levantar. ir pra aula também é um saco. aquela professora é muito chata e fica discutindo com a piazada e botando todo mundo de castigo só pra mostrar quem manda. ela é uma lóque. visto o uniforme antes que alguém me xingue e vou pra sala tomar café. onde você vai com esse uniforme? vou pra aula. alooocooo! agora imagine a torcida no estádio lotado levantando e gritando o teu nome e te ovacionando por minutos a fio. tesão né?! é como se eu tivesse feito um golaço na final do campeonato contra o time da minha mãe. ela vê que meu corpo está vibrando. ela sabe que foi algo gigantesco pra mim. ela sabe disso. e por isso a vingança é um prato que se come frio. é domingo seu burro! ela diz. PLAW! que merda. nem tinha me ligado que meu aniversário foi no sábado. gol anulado. volto pro quarto com o rabinho entre as pernas e deito no chão. fico contando números de cabeça em silêncio até chegar no 1000. e aí começo de novo e de novo até que o cara do sonho aparece. você de novo?! ele fica me olhando uns segundos. que cê quer? ele ri. e rindo fala que eu devia ter nascido com 14 anos. e seu riso aumenta e aumenta até que a boca dele vira do avesso e seu corpo murcha. tipo esses tapetes que têm na entrada das casas. piso nele e é como se fosse uma bexiga furada com os olhos pretos sem expressão. me abaixo e chego bem perto quase encostando nariz com nariz. nada. deve ter morrido de novo. se fodeu.
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entrevista para o canal LIVRADA!

entrevista que o jornalista Yuri RA do canal LIVRADA! fez comigo dia desses na casa dele.
falamos um pouco sobre literatura, sobre meu estilo de escrita e sobre meu último livro, O Cão Mentecapto, lançado pela ENCRENCA – Literatura de Invenção em maio.
confere aí!

 

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entrevista para A ESCOTILHA

Otavio Linhares: “O que não funciona no real, funciona no papel”

Escritor curitibano Otavio Linhares conversou com a reportagem sobre os temas que permeiam sua trajetória literária.

o esculpidor gazeta do povo

foto de Olívia D’Agnoluzzo

O curitibano Otavio Linhares é um dos escritores mais singulares de sua safra. Dono de uma narrativa lúdica e explorativa, o autor de O Cão Mentecapto extrapola os limites da narrativa do espaço físico da cidade – e também do livro. Sem se prender às normas e formalidade que regem a língua culta, Linhares consegue criar um texto que passeia entre seus próprios relatos e que, como não podia deixar de ser, é também seu próprio personagem.

Confira abaixo o bate-papo exclusivo que A Escotilha teve com o autor.



A Escotilha: Os seus livros, e em particular O Cão Mentecapto, têm um tom saudosista e nostálgico, retratando a infância, o começo da adolescência. Para você, a vida adulta é um fardo a ser carregado?

Otavio Linhares: Sinto muita falta da infância na fase adulta, da ingenuidade, do olhar estrangeiro da criança. Percebo que os adultos têm muitas dificuldades em lidar com seus desejos e anseios perante imposições que são sociais e que dentro do universo da criança não existem. Cor, credo, raça, por exemplo, são questões que para a criança não existem. Essas questões nos vão sendo colocadas dia após dia dentro de uma formatação cultural, e na forma como somos massificadamente educados muita coisa se perde. Adultos acabam deixando para trás seus sentimentos mais valiosos por necessidades que muitas vezes são falsas, por encaixes, por questões socioculturais que vão aparecendo e que cada um vai assumindo e digerindo de forma muito particular, e que, ao mesmo tempo, vão nos tirando motivos muito simples de alegria, de gozar a vida. Sempre que preciso me remeter ao mundo, primeiro me remeto ao olhar da criança. Ele é mais puro e despido de valores.

O Cão Mentecapto trata de temas do cotidiano, situações corriqueiras e encerra a Trilogia da Turbulência. A turbulência em questão é a rotina que nos consome ao passo em que amadurecemos?

O cotidiano nos estraga. Ficamos velhos dia após dia. A turbulência envolve, principalmente, nossos sistemas pedagógicos. Depende da forma como cada pessoa é criada e educada. O mundo que envolve cada um de nós. Geralmente é muito difícil crescer e amadurecer.

Nos três livros, você trata da burocracia em um tom kafkiano, aprisionador e que torna as pessoas apenas versões reduzidas de si mesmas. Essa influência me pareceu muito clara em “Casa”, conto de abertura d’O Esculpidor de Nuvens. Como é possível nos libertamos das amarras burocráticas?

A administração da vida cotidiana é um troço enfadonho e modorrento. Os sistemas de legitimação e administração da nossa vida tornam a própria vida um negócio chato de se viver. Pense no seu dia a dia. Pense no que acontece no seu cotidiano e elenque as coisas que não fazem sentido coletivamente, mas que mesmo assim existem. Sabe quando conversando em um grupo todos chegam a conclusão de que algo é inútil? Uma lei, uma forma de conduta, um certo existir no mundo, sabe? Quantas vezes me pego em conclusões do tipo “isso é mesmo necessário pra se viver?” e pensando nisso não entendo porque certas coisas existem. No fundo, tudo não passa de uma forma de controle. Como o panóptico desenhado pelo filósofo Jeremy Bentham que o Foucault vai retomar na década de 1970.

Você usa a figura do primeiro cigarro como metáfora para amadurecimento. Qual é a importância desse momento para você?

Tem a ver com o rompimento dos limites. Essa coisa que eu falando das pedagogias e dos sistemas educacionais nos colocam tantas amarras, que uma criança ou um adolescente só tem a possibilidade de dar voz a seus desejos se romper com o estabelecido, com aquilo que lhe é imposto. Catar o cigarro do chão e dar uma tragada é, ao mesmo tempo, um desejo que brota das entranhas e também um rompimento com o estabelecido. Imitar a figura amada, no caso a figura do James Jean, praquela criança é tornar-se adulta e poder dar vazão a seus desejos.

‘A literatura pra mim sempre foi a válvula de escape. A libertação. A possibilidade de conquista do infinito, do impossível.’

No texto que encerra O Cão Mentecapto – por sinal, um conto é homônimo a um relato do Cortázar –, você brinca com a noção espacial do livro. Quais as possibilidades lúdicas da literatura?

O fim de jogo na verdade veio do Beckett. Conheço o texto do Cortázar, mas a referência sempre foi o Beckett. no primeiro conto a ideia de que o ser humano é apenas um lóque se equilibrando numa corda esticada ao chão achando que é um exímio acróbata no alto de um prédio. no prefácio do fim de partida essa ideia. A literatura pra mim sempre foi a válvula de escape. A libertação. A possibilidade de conquista do infinito, do impossível. Quando uma coisa não funciona no real, funciona nas palavras postas no papel. Postas e dispostas de formas variadas e ilimitadas. Tão ilimitadas que cada um, num processo rizomático, faz daquilo o que bem quer. E na vida não é bem assim.

Falando ainda dos limites da literatura. Você transgride os gêneros e cria que não precisam se encaixar em convenções. Isso é uma necessidade ou sua narrativa converge naturalmente a essa ruptura?

É uma necessidade e ao mesmo tempo uma pesquisa estética. Estética no sentido de existir no mundo. Escrever dessa forma me faz sentir a vida pulsando dentro do corpo. Não me importo com gêneros e restrições. Muito pelo contrário. Não sou eu que mando. Se as coisas acontecem assim é porque devem acontecer assim. É uma resposta ao mundo. A única forma possível das coisas acontecerem através de mim. É um processo autoral e muito específico. É uma luta constante. Fazer diferente. Não repetir os antepassados. Usar o que já foi feito como catapulta pra uma coisa nova nascer pra renovar o ser humano. Pra dar mais gás pra seguir em frente.

Leia resenha de ‘O Cão Mentecapto’
» Tomando tubão na terra do leite quente

Alguns de seus contos passeiam nos outros livros – e isso é muito interessante. Por exemplo, “O Cão Mentecapto” é um relato que está em Pancrácio, mas que faz parte também do volume ao qual dá título. Como surgiu essa ideia de fazer um texto transitar entre suas obras?

O primeiro livro, Pancrácio, era apenas a novela do início, mas aí o Leprevost revisando o texto virou pra mim um dia e falou que tinha de ter umas coisas no fim, tipo um livro que ele tinha lido que eu não me lembro. Paulo Henriques Britto ou João Gilberto Noll, talvez. Enfim. Ele disse “bóta lá uns textos mais recentes. Coisa nova. Pras pessoas verem pra onde indo tua literatura”. Na hora curti pra caralho a ideia e meti no fim alguns textos que eu já tava desenvolvendo pro projeto seguinte, que era O Esculpidor de Nuvens. Depois, pensando melhor, vi que essa conexão era interessante tendo em vista que os três livros estariam conectados por um mesmo fantasma, que é o narrador principal em todas elas, mas em idades diferentes.

Nesse sentido, sua escrita é enxuta e despida de pontuação de perfumaria. Por que essa escolha?

Essa foi a parte mais difícil do processo. Antes do Pancrácio eu já tinha escrito umas mil páginas de umas estórias do detetive Linhares. Eram estórias engraçadas e tal, mas que esteticamente dialogavam com textos já conhecidos da grande literatura. Eram textos de fã. Textos ainda muito simplórios que imitavam procedimentos usados por grandes escritores. Rubem Fonseca, Pedro Juan Gutiérrez, Antônio Lobo Antunes, e por aí vai. Lia os caras e queria ser igual eles. Não funciona. Artisticamente não funciona. Não dá pra querer fazer um troço que já foi feito e que todo mundo conhece. Eu precisava dar um salto pra algum lugar onde ninguém tinha saltado. Pelo menos dentro do que eu conhecia de literatura. Então comecei a procurar novos procedimentos.

Aí, nessa época abriu o Núcleo de Dramaturgia do Sesi com a coordenação do Roberto Alvim, que é um dramaturgo e diretor que tem um teatro lá em São Paulo. Com o Alvim a coisa mudou drasticamente de figura. Ele nos apresentou textos dramatúrgicos de diversos autores de diferentes épocas e lugares do mundo e sempre com a premissa de que cada autor deveria encontrar sua voz autoral. Então tudo o que era escrito era lido e criticado pelos alunos e ali foi possível ver como os meus procedimentos eram imitativos ou gastos.

Durante três anos fiquei buscando uma forma de expressar no papel algo que fosse interessante, pelo menos pra mim. Foi aí que saquei que o uso das pontuações na minha literatura tornava os meus textos lentos e chatos. Explicativos demais. Talvez um velho vício ainda dos tempos acadêmicos. Aí fui experimentando e errando, experimentando e errando, até perceber que o problema eram as vírgulas. Elas deixavam os textos lentos e explicativos demais. Então saquei fora as vírgulas. E foi aí que nada mais funcionou. Porque não bastava sacar as vírgulas. Era preciso tornar as frases interessantes. A poesia foi quem me ajudou bastante nessa hora. O formato poético e musical das frases. Foi aí que entendi que uma palavra tinha de puxar a outra causando uma necessidade de existência da frase. Daí pra compor um livro inteiro foi mais três anos de pesquisa.

 Quando você escreve pensa na formatação em livro ou o objeto físico é mera formalidade à qual cabe o texto?

Tudo vale na hora de por o texto no papel. Não é o cérebro que escreve, no sentido de racionalizar o processo. A dramaturgia me ensinou que se você precisa deixar um espaço em branco pra que o leitor sinta o espaço que há entre uma coisa e outra, então você deve deixar o espaço em branco e criar esse respiro. Essa é a questão estética de cada pessoa que escreve ou compõe uma obra no sentido artístico. Essa demanda é muito pessoal e não tem explicação. Lembro que uma vez alguém me disse assim: “quando não for mais possível escrever, coma o papel”. Acho que tem a ver com isso. Não ter medo de fazer e não querer agradar ninguém. Ler o texto em voz alta pra mim, por exemplo, ajuda bastante a entender a musicalidade das palavras pra saber se elas estão bem encaixadas ou não. Se dá tesão falar e ouvir o texto, então dá tesão lê-lo.

Em Pancrácio, você diz que “a guerra é a mãe de todas as coisas”, o que me remeteu a um trecho de “A Canção do Senhor da Guerra”, da Legião Urbana (“uma guerra sempre avança a tecnologia…”). Seria a existência a busca constante e inalcançável da paz consigo e com os demais?

Não sei. Pra mim, o conflito funciona como forma de expressão. Gosto do conflito, da vivência, da experiência no corpo das situações que transcrevo. É preciso romper o metron. Romper a estrutura estabelecida, o tradicional. Alcançar níveis jamais vistos ou sentidos. Se dispor ao desconhecido. Ouvir a voz demoníaca que sussurra na intimidade isolada e surda de cada um. Se colocar no lugar do outro. Habitar outras intimidades. Habitar o outro. Pode parecer horrível todo esse processo, em princípio, e talvez seja. Mas o que pode parecer horrível muitas vezes é um exercício de amor. Fazer arte é um exercício de amor ao outro.

SERVIÇO | Lançamento de ‘O Cão Mentecapto’, de Otávio Linhares
Onde: Arte & Letra | Alameda Dom Pedro II, 44 – Curitiba/PR;
Quando: Sábado, 06 de março;
Quanto: Entrada gratuita / Livro: R$ 36,00;
Onde comprar: http://www.arteeletra.com.br/product-page/o-cão-mentecapto

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crítica de O CÃO MENTECAPTO

Tomando tubão na terra do leite quente

No ótimo ‘O Cão Mentecapto’, Otavio Linhares nos apresenta memórias de uma infância nostálgica e brutal numa Curitiba repleta de violência e solidão.

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O CÃO MENTECAPTO

foto da Carol Winter para capa do meu próximo livro (O Cão Mentecapto) que será lançado em maio de 2017 pela Encrenca – Literatura de Invenção.
com este livro eu fecho uma gestalt na minha trajetória de escritor. junto com Pancrácio (2013) e O Esculpidor de Nuvens (2015) eu consegui dar voz a um esquema estético onde poesia e prosa se enlaçaram imprimindo à leitura mais dinâmica e velocidade. foi uma experiência e acho que deu certo felizmente. será um livro composto de 17 contos mais longos diferentes dos textos curtos dos outros dois livros.
mais informações em breve.
valeu!

foto de Carol Winter

foto de Carol Winter

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BASQUETEBOL

são as estátuas de ninguém. esses bustos de praça são um embuste. mortos que insistem em sobreviver nas lembranças. foram os vivos que os colocaram ali. é. eu sei. paro na frente de um deles e grito você já era! ele nem dá bola. fique aí com essa sua cara de! fico quieto encarando a estátua de pedra. cara do que mesmo? sei lá. de impávido colosso. um pombo vem e faz cocô no busto. hahaha! bem feito. a titica escorre da cabeça ao peito passando pelos olhos. olha lá! lágrimas de cocô. hahaha! só que não é cocô. lembra como é o sistema defecativo nos pássaros? sistema digestório. o xixi se mistura com o cocô e vira essa papinha liquefeita que escorre e por isso não sai durinha. lembro. é a história da cloaca né? sim. a cloaca. fala de novo. o que? cloaca. cloaca. o que te lembra? nada especial. sempre que penso numa cloaca lembro das aulas de ciências da professora lurdinha e daquela menina cdf que sentava bem na frente e sempre respondia tudo o que a professora perguntava. a professora mal terminava de fazer a pergunta e ela já tava lá com o dedão em riste apontando pra cima com um sorrisinho cínico na cara se achando a última coca do deserto. às vezes me dava vontade de. do que? de beijar a boca dela. penso. de estufar ela. digo. como era o nome dela? não lembro direito. começava com d. daniela? não. desdêmona. não. deise. não. nossa! da onde você tirou desdêmona? tinha uma guria na pré escola que tinha esse nome. ela era grande e forte. empurrava a gente na balança melhor do que qualquer um. sempre quis namorar com ela por causa da sua força. acho que é com b. betina? não sei. nunca vou lembrar. era um nome diferente que só ela tinha no colégio. e o que ela tem a ver com a cloaca? não sei. o nome dela talvez. você era afim dela né? é tão nítido assim? aquele dia que ela foi visitar o colégio na feira de ciências depois de nove meses sem aparecer ela perguntou por você e você tava ensaiando a dança de educação física do final do ano. foi na feira de ciências? ela rodou o colégio inteiro atrás de você. ela me viu. acenou lá do parapeito na frente da nossa sala. eu tava lá embaixo e a vi passando. e porque você não foi lá? por causa da cloaca dentro da minha cabeça. hahaha! ela riu. eu ri. ela tirou mais um cigarro da bolsa e fumamos. dois tragos de cada um. quem acende não pode terminar. ok. terminei o cigarro e mirei a bituca no lixo. quer apostar que eu acerto? aposto um cigarro que você acerta. ok. adoro sua positividade. lá vai. ele arremessa a bituca que voa em direção à cesta quando o cronômetro é zerado e soa a campainha PÉÉÉÉÉ!!! a torcida está apreensiva. o chicago perde por um ponto e se o arremesso cair ele ultrapassa o los angeles e leva o título nacional. silêncio nesse momento. a apreensão toma conta de todos os presentes no estádio. a cidade se cala diante da iminência do primeiro título. a bituca descreve uma parábola perfeita sobrevoando a calçada. os carros passando devagar e o barulho da cantoria dos pássaros e o farfalhar das árvores fazem o pano de fundo para uma situação ímpar que em breve deve se consumar no maior fato histórico de chicago. meu coração dispara. estou prestes a acertar um arremesso dessa distância pela primeira vez. talvez esse seja meu primeiro título. até alguns anos ninguém acreditava que isso seria possível. todos duvidaram da escolha do menino franzino e magrinho que veio do interior para tentar a vida no clube da capital. a bituca gira e gira e gira espiralando no ar feito um marimbondo de fogo e PLAW! dá bem no aro do latão de lixo fazendo um barulhão igual ao do tambor do cara da orquestra que a gente foi ver semana passada. acho que era vivaldi. as quatro estações. nessa hora começo a achar que tudo está perdido e que vou ter de voltar pro interior onde meu pai me aguarda pra trabalhar na sua loja. ele sempre encheu o saco pra que eu não fosse embora mas minha mãe apostou em mim e ainda me deu uma grana pra passagem e pra uns meses na quiçaça que eu divido com mais três até hoje. o pai tem uma vendinha de bugigangas lá na cidade. é meio padaria meio banca de revista meio mercearia meio farmácia. é meio de um tudo. o vô pai do meu pai se orgulhava tanto dessa loja que dizia que daqui ninguém sai de mãos abanando! era o slogan dele. tinha até numa camiseta e num boné que ele usava de vez em quando. mas isso foi há muito tempo. o pai não entende que as coisas passam e que é preciso renovar. ele quer seguir como o pai dele e quer que eu siga junto. só que toda vez que eu entro naquela loja tenho a impressão de que meu vô se atirou em um rio com uma corrente amarada aos pés com um bola de ferro no colo e que essa corrente está amarrada aos pés do meu pai e que ele vai se jogar no mesmo rio e quer a qualquer custo que eu me atire com ele. sempre que entro na loja e olho pra baixo vejo a tal corrente nos meus pés então saio correndo pros braços da minha mãe que com um toque angelical faz tudo desaparecer. caralho! todo mundo já usa um computador pra anotar as coisas e o pai ainda tem aqueles cadernos velhos de capa de couro pra anotar as vendas! é foda vê-lo sentado lá com aquele bonezinho e aquela camiseta com seus lápis e borrachas e todo mundo andando por aí com disquetes nas mãos. a bituca sobe transversal 90° ao aro e como se deusas do basquete estivessem nos assistindo nesse momento a bituca desce na vertical tocando o aro novamente e um vento que passava por ali assim meio que despercebidamente toca de leve o toco de cigarro que meio sem saber o que fazer é forçado a cair para dentro do abissal buraco do saco preto. fatídica e maravilhosamente podemos agora gritar de alegria e abraçar qualquer pessoa que estiver passando na rua. vai! grita! NÓS SOMOS CAMPEÕES! o chicago bulls vence o los angeles lakers pela primeira vez. nos abraçamos comemorando muito a vitória do nosso time do coração e eu acabo ganhando um beijo na boca. ela me olha espantada. desculpa. digo. quer dizer. penso. quer dizer. estou confuso. então fico quieto. mentira. falo sem parar um monte de asneiras. ela sai correndo. volta aqui! me beija mais! penso. fico parado no meio da rua sem entender e sem saber o que dizer. lá da esquina ela grita parabéns! adorei ser campeã com você. meu coração dispara. tenho uma parada cardíaca e morro. mentira. mas é como se fosse.  começo a correr sem direção pelas ruas ali do bairro. corro corro corro até que as pernas se jogam num gramado e eu caio de costas e vejo estrelas sorrindo pra mim. grito. não. não grito. é tarde. levanto e saio caminhando de volta pra casa. ela me beijou. sim! ela te beijou! porque se ela não tivesse feito isso talvez você nunca fizesse não é mesmo? é verdade. rimos. um velho sai na janela e pede silêncio. vai tomar no seu cu seu velho filho da puta! não sei porque gritei isso. saio rindo e correndo de volta até chegar em casa. me jogo no sofá ainda atordoado com o beijo que ela me deu. devagarinho fico respirando o cheiro do perfume dela que ainda está no meu rosto e no meu pescoço onde ela agarrou. queria conseguir guardar esse cheiro pra sempre. cheiro ele o máximo que posso até que ele some. ligo a tv e o chicago está comemorando seu primeiro título de basquete.

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Prêmio CLAP

Acabou de sair o resultado do Prêmio CLAP – PREMIOS INTERNACIONALES DE DISEÑO INDUSTRIAL Y DISEÑO GRÁFICO. E a Arte & Letra e a Encrenca – Literatura de Invenção foram premiadas em 2 categorias!!!

– 1° lugar na categoria MELHOR ILUSTRAÇÃO APLICADA A PEÇA PUBLICITÁRIA com os cartazes dos cafés da Arte & Letra, com ilustrações do Frede Tizzot.
– E na categoria MELHOR PROJETO GRÁFICO DE LIVRO DE TEXTO, o livro Arquitetura do Mofo (ENCRENCA / 2015), do Alexandre Gil França, também com projeto do Frede Tizzot, entrou para a Seleção Clap dos 4 melhores projetos, ficando em 2º lugar.

Veja mais sobre o prêmio aqui: http://premiosclap.org/ganadores-2016

Capa e Projeto Gráfico de Frede Tizzot

Capa e Projeto Gráfico de Frede Tizzot

 

Ilustrações de Frede Tizzot

Ilustrações de Frede Tizzot

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FESTA AMERICANA II

ela é tão linda que dá vergonha de ficar olhando. o zé não teve vergonha. chegou dançou e quando todos viram já estavam se beijando. sempre acho que foi uma oportunidade perdida. podia ter sido eu. podia ter sido eu! claro que podia. porque eu não fui lá e. só que não. cada tentativa minha de mover um músculo é seguida de um negócio que dá nas pernas que não sei explicar. trava tudo. os olhos embaçam. o sangue sobe e encharca as bochechas. fico roxo. às vezes a piazada fala que sou muito envergonhado. deve ser isso. queria conseguir dançar com ela. sair do meu canto e chegar ali nas cadeiras e dizer quer dançar? só de pensar nisso já dá tontura. ela vai dizer não. porque diria sim? sou sempre o mais novo da festa. o mais baixinho. o mais fracote. li uma matéria no jornal que diz que as mulheres gostam de homens mais velhos que elas por causa da maturidade. uma menina de doze anos equivale a um cara de dezesseis. era isso que a matéria dizia. vai demorar um monte preu dançar com a helô. acho que a gente já vai ter saído do colégio e nunca mais vai se ver e aí tudo não vai passar de uma lembrança. será que vai ser sempre assim? será que um dia eu vou conseguir? plaw! um tapa na minha cabeça me interrompe. sai da frente piá! diz o grandão. no meu caso são todos grandões. vai se foder idiota! penso. se eu dissesse ele ia me estufar e eu ainda ia apanhar em casa por chegar de olho roxo. então contorço a cara mordo a mandíbula travo os dentes e fico quieto. os piás passam por mim em direção à varanda pra fumar escondido. nem tão escondido. de alguma forma eles querem que as pessoas os vejam. mas só as pessoas certas. não adianta acender um cigarro e a tua mãe te pegar fumando escondido ou com os dedos amarelados com aquele cheiro característico de cigarro que impregna até a alma de quem fuma. se a mãe me ver fumando é pau na certa. a pessoa que tem de ver você fumando tem que ter o desejo de fumar também. tem de achar isso uma coisa fantástica. uma tarefa árdua. um desafio pessoal. tipo nossa! olha lá! o fulano tá fumando. ai! o fulano é demais! queria estar com ele. ser ele. de alguma forma me relacionar com ele. eu que fico de longe sempre escuto as meninas falando isso. é o que os piás querem. eu não tenho coragem. mentira. um dia peguei uma bituca que tava no cinzeiro lá de casa e imitei o jeito que os amigos dos meus pais fazem. foi uma merda. parecia que eu tinha engolido um negócio tipo um sei lá. nunca tinha provado um bagulho tão ruim na minha vida. a mulher da propaganda da tv diz que quem fuma passa pra maconha cocaína perde os amigos crack vende tudo a família desmantela roubo cadeia prostituição roubo tráfico e aí sai sangue e a pessoa morre. não sei se ela tá falando comigo nem sei se é verdade. os olhos dela brilhando enquanto fala são tão verdadeiros que fica difícil de duvidar. provavelmente a moça teve uma experiência ruim na família ou perdeu uma pessoa querida pras drogas ou ela mesma foi usuária e se fodeu e aí foi lá na tv falar sobre a sua experiência pra passar uma frase de carinho e de apoio aos que precisam de ajuda. sim. foi isso sim. a tv não mente. mudo de canal e o cara montado no cavalo indo em direção ao por do sol olha pra mim e diz só alguns homens sabem que a beleza dos cavalos selvagens está na sua liberdade. venha! ele continua. levanto do sofá e vou em direção à tv. estou indo. os piás apagam o cigarro na grade que separa a varanda do gramado do jardim do condomínio e voltam pra festa. vem com eles um cheirão de cigarro que faz com todos fiquem olhando e sussurrando frases de apoio e de crítica e de amor e de espanto. eles caminham com o peito estufado como se fossem os heróis da juventude. e são. toda a piazada ri com o canto dos lábios e as meninas acham eles o máximo. um deles vai até a vitrola e tira o disco que tá tocando sem perguntar pra ninguém se ele pode fazer isso. só pega o disco que risca fazendo um barulhão e larga o vinil ali mesmo do lado da vitrola. de dentro da jaqueta de couro puxa um disco da sua banda favorita e bota pra tocar. dead kennedys. toda a piazada voa pra pista de dança e começa a se chutar e a se esbofetear e a gritar a letra em inglês de um jeito tão alto que fica impossível saber se alguém ali sabe ou não o que está cantando. nossa professora de inglês que é uma lóque e nem sabe inglês direito ia ficar escandalizada com essa cantoria alhures. só que ela nem sabe falar inglês direito! como ela pode não saber de uma coisa e fazer críticas aos outros? esses tempos ela ficou discutindo com uma aluna que o nome michael se pronunciava mixael. o que? ela falou isso mesmo? a professora falando errado um troço tão básico? sim! o x soando ch como na palavra xixi ao invés de maicou como nos filmes legendados que a gente vê. a menina levantou o dedo. professora? pois não. não seria maicou ao invés de mixael? não! de onde você tirou isso? sei lá professora. pelo menos nos filmes que a gente vê no cinema sempre que aparece um michael a gente vê as personagens falando maicou e não mixael. quem é a professora aqui? a senhora. então é mixael! quando você crescer e for dona do seu nariz você fala como você achar melhor. por enquanto quem manda aqui sou eu e vocês só obedecem. falou e saiu da sala. ficou todo mundo sem entender nada. meio afetada a professora. mas o que a gente podia fazer? na semana seguinte ela não apareceu. e na outra também não. era a segunda aula de segunda feira. a primeira era religião que nunca teve então na segunda feira a gente só começava na terceira aula quase na hora do recreio. e tudo isso por causa do tal do maicou? aham. credo! o diretor disse que ela pediu licença e só volta ano que vem. que massa! pelo menos agora dá tempo de sobra pra ir lá nas lojas americanas e pegar uns chocolates e depois na mesbla pras encomendas das gurias. tô fazendo uma grana com canetas doze cores. cada uma dá pra vender por deizão. se você for ver lá na loja tá vintão cada uma. e ainda tem os chocolates pra bater um rango antes de entrar no colégio. e nunca pegaram vocês? putz! uma vez quase. mas aí a gente saiu correndo e não deu nada. é que não é só a gente né?! cê chega lá nas americanas e tem uma galera pegando chocolate. cê tem que ser mais esperto que a galera e que os seguranças. esses dias a gente tava saindo pela saída de trás e tinha dois piás esvaziando os bolsos pro segurança. a gente ficou lá do outro lado da rua vendo e não parava de sair chocolate dos piás. hahaha! os dois pareciam uma fábrica de chocolates. saía doce dos bolsos da mochila das meias da cintura da cueca. sério!? o segurança até tirou a camiseta pra fora e fez tipo uma bolsa pra ir colocando os chocolates dos piás. foi muito engraçado. os piás tavam se cagando nas calças de os seguranças contarem pras mães deles. imagina se a minha mãe tem de vir aqui buscar a gente?! nossa! é tiro porrada e bomba! acho que eu ia ficar uma semana apanhando. então agora tá sujo ir lá? tá. tá bem sujo. a piazada tava até combinando de dar um tempo com as paradas ali no centro. acaba a música e o piá vai lá e muda o disco de lado. começa tudo de novo. porrada soco chute. não vai entrar na roda? nem fodendo. se eu entrar aí eles me quebram. pela janela vejo o zé passar com a helô. vazaram da festa. essa piazada chega e muda as músicas e aí para de tocar as lentas românticas e todo mundo vaza. peguei mais uma lata de coca e fui lá pra fora. a piazada já estava se organizando pra ir embora quando o síndico do prédio desceu puto da vida. TODO MUNDO PRA FORA! vixi. fodeu. na terceira vez que ele repetiu a voz de comando chegou duas viaturas da pm. agora sim fodeu. a piazada que tinha cigarro maconha e drinks saiu correndo e os canas foram atrás deles. eu que estava ali de boa com mais uns amigos ficamos quietos e fomos saindo sem acontecer nada com a gente. pegaram três. o resto fugiu. nesse momento como se o natal tivesse chegado de repente e as luzes começassem a piscar e eu ganhasse o presente dos meus sonhos sinto uma gota de alegria percorrer meu corpo inteiro. consigo sorrir de verdade. olho pros meus amigos e eles estão tendo a mesma reação que eu. pela primeira vez na vida vi vantagem em não ser notado. na cabeça de cada um de nós começa a tocar uma música favorita e a gente sai correndo no meio da rua e começa dançar freneticamente embalados por uma euforia extasiante e de repente todos se abraçam e é maravilhoso sentir que pela primeira vez o mundo não é tão real assim. subimos até o ponto de ônibus do madrugueiro já suados de tanta correria e aí quatro malacos que vinham descendo a rua param e perguntam alguém tem horas? essa é a deixa. o código secreto dos malacos para roubar tudo o que a piazada do nosso tamanho tem. levaram o que tinha restado da noite. a grana pra três passagens e três pares de tênis. e ainda levaram a mochila do meu amigo. foda. terceiro assalto em um ano. já perdi um monte de coisa. teve uma  vez que foram dois assaltos no mesmo dia. uma bike em um e o boné em outro. a galera fala que eu sou zicado. acho que os malacos gostam de mim. deve ser essa tua cara de idiota. teu cu! as duas viaturas ali a cinquenta metros da gente tão preocupada com a bagunça da festa que não viram que estávamos sendo assaltados. voltamos pra frente do prédio pra prestar queixa e nem deram bola pra gente. tentamos falar com um policial e nada. tentamos com outro e sai daqui piazada! vão pra casa! é o melhor que vocês fazem. de repente todo mundo sumiu dali. as viaturas se foram. o síndico locão lacrou o portão do prédio com corrente e cadeado pra ninguém entrar ou sair e subiu pra casa dele. a galera já tinha saído correndo. só restou nós três. podia estar chovendo né? hahaha! rimos e fomos subindo descalços até em casa discutindo se a nossa capacidade de aguentar as porradas é maior do que a de dar porradas. conclusão? quem saiu acompanhado da festa não foi a gente.

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NOTÍCIAS DE ÚLTIMA HORA DO ÚLTIMO PLANETA

o antológico oleg antonov caminha apaixonado de mãos dadas com sua sacola de maçãs do amor.
o antagônico charles de gaulle comprou à prazo um balão e pagou apenas a primeira de vinte e duas e partiu.
a diviníssima elke maravilha ao que tudo indica é tão maravilhosa que quem disse isso não se arrependeu.
o sobrevivente antoine artaud casou-se com seu primo woody allen de doze anos e sumiu de cena sem nenhum rancor.
a espetacular elizabete não foi espetacular o suficiente e perdeu a apresentação de ballet da sua filha juliana.
o romântico renato russo continua amando as pessoas mais do que todos nós juntos.
a repentina enxaqueca que atacou nosso planeta é causada pela mesma toxina que forçou a santa ceia a terminar.
o místico raul seixas deixou de arrancar um siso e por isso errou em seu solo de guitarra final.
a travesti nelson rodrigues vendo o amor desfalecer despetalou uma flor: ou eu me mato ou eu me morro.
o esculpidor otavio linhares tentando ganhar tempo continua perdendo um segundo por segundo.

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Literatura

PEIXES NO AQUÁRIO

esse texto eu publiquei originalmente no meu segundo livro (O ESCULPIDOR DE NUVENS / ENCRENCA – Literatura de Invenção / 2015) e foi dedicado a uma mulher, minha querida amiga Martina Sohn Fischer.

postei de novo para homenagear o movimento NI UNA MENOS e também como uma forma de protesto pelo assassinato brutal ocorrido na argentina que tirou a vida da jovem Lucía Pérez.

#niunamenos
http://niunamenos.com.ar/

existe uma menina que mora em mim. uma menina que mora em mim desde que eu era uma criança. uma criança de cinco seis quatro anos. bem pequeno. uma menina virgem. uma menina assim como eu. de pele bege meio adoentada e olhos fundos e barriga d’água e pés descalços de marcar quina. pés de bailarina. e também meio ingênua de algumas coisas. e também delicada. e despenteada. não maltrapilha. só despenteada. porque não gostamos de nos pentear e nem de passar roupa. isso é coisa de gente velha. uma menina virgem de doze treze anos que tem muitas vontades e desejos. e que gosta de sentar e ouvir o vento só pra zombar de quem não consegue. e de conversar com os invisíveis. e de contar pra todo mundo as maiores mentiras. porque a gente acredita que se todo mundo acreditar não vai mais ser mentira. e que gosta de espiar buracos de fechaduras de banheiros quando os velhos vão tomar banho pra ver como vamos ficar quando nós ficarmos velhos. achamos que vamos ficar um pouco melhor que nossos pais e mães e avós. ela sempre diz que somos muito melhores que eles porque usamos a imaginação e eles só sabem andar pra lá e pra cá e mexer os braços e tremer as pernas. nossos pais são bonecos engraçados que se movem bastante pela casa no final do dia. ela tem uma voz que sempre faz tremer meu estômago. a voz dela é muito suave. mas ela fala muito pouco. é uma voz que eu consigo ver e que tem cheiro e que sempre me lembra a cor amarela porque é tão perfumada quanto um abacaxi. tem vezes que quando ela abre a boca no quarto pra me mostrar uma palavra nova que ela aprendeu na rua eu consigo sentir o perfume até lá da sala de televisão. é bem bom e dá vontade de comer. sempre que ela aparece ela vem do meu lado esquerdo meio de cima. porque eu estou sempre sentado e ela de pé. às vezes ela vem do direito. só às vezes. eu acho ela muito linda. e eu gosto muito dela porque ela não faz nenhuma força em mim. nenhuma força de mãe demônio ou de namorada ciumenta ou de mulher mandona. fica parada do meu lado e conversamos algumas horas por semana. às vezes nos olhamos igual olhamos os peixes no aquário do meu pai. sem fazer aquilo com a boca que é engraçado. hoje ela quer ser uma sereia. e eu quero ser uma truta. somos bem humorados quando estamos juntos e jogamos. jogamos qualquer coisa. inventamos os jogos e jogamos. só isso. o de hoje era pegar pedras no chão e contar quantos brilhos cada uma tinha quando a gente colocava elas no sol do meio dia. quem conseguisse catar mais brilhos ganhava. ela gosta de mim porque sei escrever e ela não. e juntos fazemos cartas que gostamos de guardar em nossas cabeças e depois esquecer. igual agora. cartas de esquecimento. porque não gostamos de lembrar das coisas quando estamos juntos. só vale inventar. e combinamos de um sempre aparecer para o outro até morrer.

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CARTA CAPITAL nº923

perfil para a revista CartaCapital de out/2016 escrito pelo jornalista Rodrigo Casarin.
valeu man!

Carta Capital 593 / texto de Rodrigo Casarin / fotos de Olívia D'Agnoluzzo

Carta Capital 923 / texto de Rodrigo Casarin / fotos de Olívia D’Agnoluzzo

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CRÔNICAS

ANGU DO GOSMA

fui almoçar ao lado do jornal numa quiçaça de cinco pilas o buffet livre. nas minhas crônicas meus melhores personagens saem desse lugar. se chama angu do gosma. o gosma é um cara de uns dois metros de altura e cento e quarenta quilos que molda hambúrgueres no peito. ele se orgulha de estar sempre com o peito depilado pra não juntar pelinhos nos hambúrgueres. eu acho o máximo. tem quem ache nojento. muita gente come ali porque é barato. ninguém se pergunta de onde o gosma tira toda aquela comida nem como ele faz pra ela ir parar nos nossos pratos. ah não importa. cincão por dia. vinte e dois dias. cento e dez pilas por mês. é mais barato que comer em casa. esse é o comentário mais ouvido durante as refeições. tão comentado que até no flyer o gosma colocou. o flyer que uns piás distribuem no sinal é a coisa mais tosca que eu já vi. o filho do gosma que faz. ele fica no caixa cobrando a galera e nos intervalos monta essas coisas pra ele. esse agora tem uma foto dele todo suadão de chapéu de mestre cuca e só de avental sem camisa com um balãozinho saindo da sua cabeça É MAIS BARATO QUE COMER EM CASA!

#émaisbaratoquecomeremcasa #angudogosma

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