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NUS NO ENGARRAFAMENTO

olho pra frente e não vejo grandes perspectivas de sucesso. tudo não passa de um grande engarrafamento num calor do caralho. um enorme buzinaço e pessoas com os vidros dos carros abertos e os braços pra fora das janelas abanando tentáculos. eu eu eu! igual quando se corta o rabinho de uma lagartixa. eu eu eu! igual quando se corta a cabeça de uma galinha. eu eu eu! igual na tv o pânico dos animais que são mortos e ainda ficam se mexendo. é verdade. você diz. tudo não passa de um grande engarrafamento num calor do caralho. um enorme buzinaço e pessoas com os vidros dos carros abertos e os braços pra fora das janelas abanando tentáculos. eu eu eu! igual quando se corta o rabinho de uma lagartixa. eu eu eu! igual quando se corta a cabeça de uma galinha. eu eu eu! igual na tv o pânico dos animais que são mortos e ainda ficam se mexendo. estamos ligados no modo pânico. aos berros ninguém se ouve. aos berros ninguém se quer. ninguém realmente se quer. é o bando do me dá me dá. e do me dá mais. e eu e você parados aqui no fundo. aqui atrás nus no fundão observando. voyeurizando com nossos óculos escuros de raio-x. sentados em nuvens. olhando tudo de dentro pra fora. escarafunchando. vixi mano! olha lá! o que? você aponta. olho. dentro de um dos carros um homem sente uma pontada na cabeça. aperta os olhos contrai a mandíbula passa a mão. é a enxaqueca chegando. você diz. ele passa a mão no estômago e na nuca. vai ao porta luvas. nada. só manuais e papel higiênico e uma foto da filha e da esposa. merda! ele pensa. sem remédios ele entra em desespero. a vista começa a embaçar. o estômago uma bomba relógio. a enxaqueca avisa que está chegando e ele não tem um remedinho pra aliviar a tensão. o homem olha pra cima. afrouxa a gravata. limpa o suor da testa com a manga da camisa nova que acabou de ganhar da amante depois do banho no motelzinho de sempre pra comemorar os três anos de relacionamento. feliz três anos meu amor. ela diz. feliz três anos. ele concorda com seu sorriso de galã de filme. champanhota canapés posição nova que ele viu na internet e no fim ele diz que vai ter uma vão continuar suas vidinhas assim que o semáforo abrir. você continua. já gozadas e aliviadas pelo prazer que toda aquela confusão causou com o guardinha espancador e o tiozão do extintor que corria pela vicente machado manchando a galera de branco fazendo nevar em pleno verão as pessoas vão descer a avenida seguindo o curso natural das coisas que é o que deve ser feito em momentos de muito calor. a galera não tá nem aí. às vezes até tá mas dá uma preguiça da porra se meter com os outros. se o cara tá a fim de apavorar geral com as piras dele quem somos nós pra dizer que ele tá errado? hehe! rimos uma risadinha miúda. risadinha chapada de olhinhos semi cerrados. hihihi. tá muito quente. é verdade. quer fumar mais um? bóra. aumenta o som.

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o conto NUS NO ENGARRAFAMENTO faz parte do livro O Cão Mentecapto (ENCRENCA / 2017) e pode ser encontrado no site da editora com 20% de desconto: https://www.arteeletra.com.br/encrenca

 

 

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MICÉLIO

quando entrei no quarto veio um cheiro ruim de. não sei. um cheiro ruim de coisa morta. de coisa morrendo. dos negócios que a minha tia irmã da minha mãe deixa na janela fermentando. a cortina fechada e a janela também. porque será? penso. que lugar claustrofóbico. o que é claustrofóbico? não tem como uma pessoa viver aqui. a porta que dá pro outro quarto está meio aberta e o barulho do rádio mal sintonizado incomoda pra caralho com zunidos e chiados que parecem uma nuvem de gafanhotos perfurando nossas cabeças. a vó mãe do meu pai deixa o rádio ligado o dia inteiro numa rádio evangélica que ela adora com um copo de água na frente pra receber as orações do pastor três vezes por dia. tem uma bíblia em cima do copo que fica aberta sempre na página que o pastor manda. às oito da manhã tem a primeira missa e aí acontece a benção da água e ela bebe tudo e depois enche o copo de novo. depois de tarde tem também e aí de noite antes de dormir. ela sempre diz o corpo e a alma ficam forte por causa dessa água abençoada. olha teu vô! ela diz sendo sarcástica e ao mesmo tempo com pena. nunca foi na igreja comigo. não bebe. não fuma. sempre trabalhou direito e ó como ele tá. deus que me perdoe sofrer desse jeito. ela diz fazendo o sinal da cruz. se bebesse a minha água. humpf! bufa e se cala por um instante. parece que por um segundo alguma coisa falou com ela. seus olhos se fecham. ela respira fundo. e depois diz. tá na hora do remédio. ela resmunga e vai até a cozinha e começa a mexer nas coisas e abrir e fechar portas. volto pro quarto do lado e lá está meu vô pai do meu pai. a melhor pessoa do mundo. o cara mais legal da terra. chego bem perto dele. pego sua mão. cadê seu gorro? ele pergunta. tá lavando. minto. quando você vem dormir de novo com o vô? a mãe disse que amanhã é sábado e que eu posso vir dormir com você. minto de novo. mas foi a mãe que mentiu pra mim e eu só passei a mentira adiante. mentimos juntos. somos uma família de mentirosos. tudo bem. ele diz quase apagando. o vô parece a nossa tv quando volta a luz depois de uma tempestade. fica indo e vindo. indo e vindo. indo e vindo. acompanho ele navegando mais um pouco. o senhor tem câncer. diz o médico. e já está em estágio avançado. o vô pai do meu pai começou a ter dificuldades pra mijar e foi no médico. aí fez um exame dois exames três quatro e. já tomou a bexiga e está indo em direção ao rim. a vó mãe do meu pai nem se mexeu na cadeira. até os pássaros e as árvores pararam por um tempo. mas não foram os pássaros e as árvores que pararam. foi o vento. o vô olhou pela janela e percebeu que os cabelos das pessoas não estavam mais se mexendo e que ficou muito quente de repente. então ele abriu a janela e encostou a mão na terra e um micélio disse a ele que no litoral as pessoas estão sofrendo sem a brisa que vem do mar e que ele deveria decidir o que fazer antes que todos ficassem com muito calor e começassem a morrer por falta de água. então ele coçou a testa e disse humm. sentou de novo na cadeira do consultório e o que eu devo fazer doutor? perguntou ao médico com a voz meio embargada sabendo da resposta e sabendo o que teria de dizer a esposa e aos filhos e aos netos. o vô nunca foi de ir ao médico. ele gostava mesmo era da terra e dos bichos. sempre cagou pra essa tal de medicina ocidental e cultivava a própria comida. aí veio uma dor horrível pra mijar e a vó encheu tanto o saco dele que ele foi no médico. câncer. ele ficou estarrecido por um milésimo de segundo. depois passou. foi pra casa. reuniu todo mundo ao redor de uma fogueira tenho câncer e morrerei logo. levantou e foi pra dentro de casa. ficou todo mundo com os olhos arregalados. eles só tiveram filhos homens e essa coisa de homem não chorar fez com que todos ficassem apenas de olhos arregalados. o pai que é o mais sentimental e romântico de todos levantou correndo e foi lá pra dentro falar com o pai dele e o vô estava bem de boa vendo o noticiário. teu time não ganha uma! hahaha! disse oferecendo uma xícara de chá ao meu pai. o pai ficou quieto. a vó entrou logo atrás. oito horas. vou beber minha água abençoada. por causa dela não fico doente. humpf! já teu pai… lá de dentro dava pra ouvir o pastor aos berros abençoando a água da vó. o pai foi lá pra fora se despedir dos irmãos e aí fomos pra casa. o vô morreu um ano depois. depois de voltar do enterro o pai foi dar uma volta pelo jardim do pai dele porque o vô não deixava ninguém entrar lá e encontrou no meio de uns pés de tomate alguns cogumelos. o pai riu. colocou um na boca e. deixa pra lá. jogou na terra de novo. não comeu e nunca contou pra ninguém. e nem tinha o que contar porque uma semana depois a vó foi morar num outro bairro e a casa que era alugada foi abaixo. veio uma construtora que quebrou tudo e fez um prédio. aqui é assim. disse meu pai olhando um trator entrar no terreno. se não vira igreja vira estacionamento ou prédio. virou prédio. uma vez o vô me contou uma história sobre um tecido mágico que recobre a terra inteira e que vez ou outra sai com seu periscópio à procura de amigos. ele disse que se um dia eu topasse com um que guardasse ele com carinho porque a nossa vida depende dele. no final o desejo do vô de ser cremado e enterrado em seu jardim obviamente não foi respeitado pela vó e hoje o que restou dele / e dela também / está ali no jazigo 33 do cemitério água verde. tomamos um chá juntos de vez em quando.

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MEU MELHOR AMIGO

pela janela vejo o pablo e o filho da vizinha do oitavo andar. o pablo empurra o piá da bicicleta. o piá se estatela no chão. rala o joelho direito o cotovelo esquerdo e a panturrilha das duas pernas. não sei como ele conseguiu isso. foi uma façanha a queda do piá. bateu de um lado depois quicou do outro e deu uma arrastada de costas. coisa de ninja o tombo dele. o pablo pega a bike e sai pedalando. o piá levanta rápido e sai correndo atrás. o pablo no meio dos carros na rua. agora ele tem uma bicicleta. a mãe do pablo mora no mesmo prédio que eu. no décimo andar. ela jurou pra minha mãe que o pablo quando crescer será o maior jogador de futebol de todos os tempos. o pai do pablo é argentino e nunca veio visitar a família. a mãe do pablo jura que ele ainda vem e que se não veio ainda é porque deve estar muito ocupado com a bolsa de ações. o pai do pablo é corretor na bolsa. meu pai diz que ele é agiota. não importa. saio da janela. vou lá com os piás. abro a porta de casa e dou de cara com a velha do apartamento da frente. ela me fulmina com o olhar. essa velha foi líder de um destacamento nazista feminino quando a alemanha tinha planos de invadir o brasil. se os nazis tivessem chegado até o brasil ela ia ser a chefe das professoras que iam ensinar às crianças o manual do nazistinha. uma vez vi pela porta do apartamento dela umas armas e umas fotos de uns caras fardados. até montamos uma força tarefa pra invadir o apartamento dela de madrugada mas fomos dissuadidos pelo nosso porteiro o seu albano. queria que essa velha derretesse igual cera de vela. desejei do fundo do meu coração. fechei os olhos e quando eu abri PLIM! a velha derreteu na minha frente. é sério! vou contar pra piazada na escola e eles não vão acreditar. a velha é sozinha e ninguém vai sentir falta dela. pelo reflexo da porta do elevador minha imagem refletida pergunta a mim mesmo de que adianta ter o poder de derreter as pessoas se você só pode usar contra pessoas que não vão fazer a mínima falta e assim ninguém vai acreditar que você tem esse poder? a porta do elevador abre. vazio. entro. aperto o térreo. o elevador desce. essa parte é chata então vou voltar lá pra cima pra falar do pablo. ele é um piá legal. ele sabe fazer malabarismos com limões e sabe empinar a bike e andar de uma roda por uma quadra inteira e sabe assoviar de três jeitos diferentes e faz um negócio com a sobrancelha que ninguém na rua consegue. alguns chamam ele de pablo el super dotado. acho meio palha dizer isso só porque ele consegue fazer coisas que ninguém consegue. a mãe dele diz que todos os piás da rua sentem inveja do pablo. que todos querem ser como o pablo. que o pablo é o queridinho dela. que o pablo é sua obra prima. que o pablo sabe fazer as coisas que a gente não sabe porque o pai do pablo ensinou. espera aí! o pablo não tem pai PLAW! bem na hora que ela se gabava do próprio filho e falava essas asneiras eu achei que tinha pensado essa fala mas na verdade eu falei sem saber que tava falando e aí PLÓF! levei uma bolsada na orelha. da onde saiu essa lóque?! tinha alguma coisa dentro da bolsa. uma arma talvez. porque bateu na minha cabeça e ficou uma meia hora zunindo. tipo o sino das sete que é aquele que soa bem forte e bem alto porque é troca de turno de padre e o padre que entra às sete é forte e porrudo feito um cavalo. ele parece mais o segurança da igreja do que o padre da noite. meu pai só se confessa com ele. minha mãe não. minha mãe não confessa. acha tudo isso uma bosta. a mãe diz que essa coisa de confessar é igual à psicanálise o que é psicanálise? quando eu perguntei ela bufou igual ela bufa pro meu pai AFF! ela deve achar que tem um pouco do meu pai em mim. mas tem né! metade metade. fifty fifty disse a professora de inglês quando eu perguntei pra ela em português porque que a gente se parece tanto com nossos pais? a turma riu. ela disse que a professora de ciências poderia responder melhor a minha pergunta mas a professora de ciências é o professor de ciências. e o nome dele é carlos. não dá pra fazer uma pergunta dessa prum professor homem que se chama carlos. o apelido dele deve ser carlão. na rua dele a galera deve chamar ele de carlão. ele é grande. se fosse pequeno chamariam de carlinhos. mas é carlão. e não dá pra perguntar prum cara chamado carlão uma coisa dessas. então perguntei pra minha mãe que mandou perguntar pro meu pai que tava ocupado vendo o jogo do coxa e mandou eu perguntar pra professora aí eu expliquei pra ele que a professora era professor e no meio da minha explicação saiu o gol do coxa GOOOOL! do lateral índio. ele não é índio. só parece. o nome dele que é índio. ele quase nunca faz gol então o pai ficou louco de alegria e a cerveja dele foi parar no chão e a mãe ouvindo a barulheira veio ver o que aconteceu e o quebra pau começou de novo e eu fiquei sem saber pra quem perguntar porque a gente se parece tanto com nossos pais? penso. a solução foi ir ao confessionário da noite ver o padre cavalo. cheguei lá e tinha uma fila enorme que dobrava a paróquia. todo mundo com seu tercinho na mão rezando as rezas que o padre tinha mandado rezar. fui furando a fila. botei a mão na barriga fingindo dor e fazendo cara de coitado e logo cheguei na frente do confessionário. tinha uma velha saindo lá de dentro. uma outra velha mais velha que a velha de cera. essa velha mora no primeiro andar do meu prédio porque não pode pegar elevador por causa da vertigem nem subir escadas por causa da artrose. sei de tudo o que acontece no meu prédio. é só ficar meia hora fingindo que tá lendo o jornal no hall de entrada que o seu albano que é o porteiro te deixa a par de todas as coisas que acontecem. ele não conta pra mim. mas pra todo mundo que passa ele tem uma versão mais bizarra da mesma história pra contar. e a cada dia ele conta uma história nova ou uma coisa que aconteceu no prédio. às vezes ele repete. só que ele vai mudando as coisas de lugar. o nome das pessoas. as pessoas. geralmente ele começa com uma pessoa só e um acontecimento nem tão inusitado. aí ele percebe que quem tá ouvindo não tá nem aí pra história dele então ele bota mais alguém ou aumenta o acontecimento. enquanto as pessoas que vão passando não se pregam na história ele não para de mudar. é uma estratégia. até que alguém solta um risinho pra história opa! fisguei! ele pensa. aí ele vai administrando o negócio até o elevador chegar e a pessoa ir embora. então ele saca que aquela história daquele jeito funciona e guarda ela na cabeça. vai que precisa dela outra hora. e por aí vai. depois de umas quarenta pessoas ele já tem algo muito mais elaborado do que aquela historinha mequetrefe do começo. o que era um carro mal estacionado na garagem de um vizinho já virou um acidente de trânsito com vítimas fatais e trilha sonora. esses tempos ele descobriu que botando um som pra rolar durante a contação as pessoas se interessam mais. e não é só isso! ele sacou que dá pra aumentar e diminuir a música durante a narração. aí ele descambou pra efeitos especiais e iluminação. comprou um dimer pra controlar a luz do balcão e um controle pra subir e descer o volume do toca fitas que fica mocado embaixo do balcão. acho que se a gente filmasse ia dar uma grana. só que ele é analfabeto. não sabe nem preencher o nome. quando chega alguma correspondência ou encomenda do correio que tem que assinar ele puxa a almofadinha de carimbo e PLAW! mete o dedão. no começo os caras dos correios encrencaram com ele dizendo que não sei o que e não sei que lá e aí sacaram qual era a do seu albano e deixaram pra lá. o cara é gente boa! não vão lá encrencar com ele por causa de uma assinatura! disse o chefe dos entregadores. aí ficou tudo bem. menos uma vez que a velha do primeiro andar reclamou lá de um troço que ela recebeu errado e que tinha o dedão do seu albano no papel mas aí não sei o que e não sei que lá e ficou tudo bem. nem vale a pena falar disso porque o seu albano foi afastado e teve de tomar remédio pra cabeça. acho que foi depois do remédio que ele começou com essa história de contar histórias. ele disse que vinha a pé sempre com um amigo dele. aí um dia eu segui ele e não tinha ninguém. foi bem na época que tava passando direto na tv um filme sobre um cara que inventou umas coisas e todo mundo no começo chamava ele de gênio só que de repente todo mundo começou a chamar ele de louco porque ele batia na família. na hora pensei que o seu albano era louco. mas aí veio essas histórias no hall de entrada do prédio e eu pensei o seu albano é um gênio! então fiquei mais amigo dele. ficamos tão bróders que minha mãe deixava eu trazer um pedaço de torta pra ele e ele sempre separava o caderno de esportes pra mim sem eu pedir. é que um dia ele me viu entrando no prédio com a camisa do atlético e sussurrou pra mim um pedaço do hino do time enquanto eu esperava o elevador. quando olhei pra ele seus olhos já estavam grudados no jornal. ele quis que eu ouvisse mas não quis mostrar que tinha dito. era o nosso pacto. agora eu tinha um segredo com o seu albano. ele era meu melhor amigo. e por isso contei só pra ele do dia que eu derreti a velha que morava na frente do meu apartamento e é claro que ele sendo meu amigo de verdade porque tínhamos conversado por sussurros acreditou e acrescentou mais um detalhe à minha história revelando que ele viu tudo pelas câmeras e que tava tudo filmado mas que ele deletou pra que ninguém além da gente soubesse o que tinha acontecido com a velha. fiquei tão emocionado que não contei pra mais ninguém a nossa história. isso é que é amigo.

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Heróis são como nuvens

o cão capa frente

por Luigi Ricciardi para ACRÓPOLE REVISITADA


Otavio Linhares é grata surpresa no meio literário, desses escritores de estilo próprio, nada forjado artificialmente, destilando uma literatura por vezes engraçada, por vezes triste, por meio de um olhar peculiar, por vezes esquecido na literatura nacional.

Curitiba é uma das grandes cenas literárias brasileiras. É de lá que vem o escritor e o livro de contos “O cão mentecapto”, que tem a capital paranaense como cenário e um trabalho estético que abole vírgulas e letras maiúsculas. É publicado também por uma das editoras mais interessantes nesse círculo de médias e pequenas: a também curitibana Arte & Letra.

Todos os contos são narrados pela ótica de personagens que transitam entre o fim da infância, a adolescência ou às portas da maioridade – alguns com fortes elementos biográficos (autoficcionais?). Sempre em primeira pessoa, as vozes são jogadas com uma força visceral nas páginas, dando uma grande naturalidade a um discurso oral, como se mais ouvíssimos as narrativas do que lêssemos.

Narrativas que são comuns na vida dos adolescentes. Vergonha de chegar na menina e chamá-la para dançar, o que faz com que os mais rápidos e destemidos conseguirem mais facilmente. Ser franzino e pequeno em um grupo de meninos maiores. O bullying na escola que “é um lugar inapropriado para quem tem menos de um metro e meio”. Brigas e necessidade de pertencer a determinado grupo. Roubar coisas pequenas em lojas de departamento. Ser assaltado por mais velhos e receber descaso da polícia. Escolher um time de futebol etc.

A falta de lógica da vida adulta é vista pelo olhar da criança, pois seu mundo tem suas próprias lógicas. Crianças que não são tão inocentes quanto pintam e que têm a mente solta a imaginarem desdobramentos para acontecimentos que fogem do seu controle. Mundo que também é povoado de tragédias, como no único conto que conta com voz feminina.

O livro pode até ser nostálgico para alguns leitores, mas é uma nostalgia não romantizada, mostrando várias facetas do ser criança/adolescente de classe média/baixa em uma cidade que oferece tantos perigos quanto sonhos.

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A INFÂNCIA MOLDADA A SOCOS

 

o cão capa frente

por Sérgio Tavares A NOVA CRÍTICA
15/05/2017


O cão mentecapto, de Otavio Linhares, é regido por uma brutalidade que se injeta pelos veios da infância.

Nos 16 contos que integram o terceiro livro do autor curitibano, os personagens se encontram em ocasiões de transformação e de (auto)estranhamento, através das quais a percepção de mundo passa por um filtro desfigurador que condiciona a violência como um meio irremissível de formação.

São crianças/adolescentes que surram e matam crianças/adolescentes, que descobrem as drogas e os fervores da puberdade, que começam a se dar conta de que os familiares adultos que os cercam não ostentam a medalha dourada do xerife ou o símbolo esplêndido do super-herói.

A noção de herói passa a obedecer a um critério suspeito. É o tio que dá um pau nos guris que tiram banca de valentões do bairro, ou os caras da escola que apavoram a todos e, mesmo assim, despertam admiração. e pensar que quem matou o piá foram os melhores do momento, lamenta o narrador do conto “Cães famintos”.

Tal comportamento, de onde sobressaem o embrutecimento precoce e a crueldade, incorpora-se naturalmente à banalidade da rotina.

É a Curitiba desoladora, que se faz aparecer justamente no que há de mais opaco, que se comunica por gírias e expressões regionais, porém um lugar que é, de uma só vez, distinto e familiar, feito por suas semelhanças e desajustes, a exemplo da ideia mirim de cidade que trazemos quando tudo se resume à rua, ao colégio, à casa do amigo.

Para dentro dela, embrenham-se os narradores que desfilam seus dramas correntes ou vão procurar, no baú de ossos, sentidos para uma existência guiada por traumas, invadida por fantasmas, sugada pela solidão. Os relatos também clamam por reconhecimentos e (auto)descobertas que, em instantes raros, são codificadas em metáforas, como visto no conto que empresta nome ao volume. o tronco é a pior parte de todas. a mais difícil de sacar fora. guarda um coração cansado e velho. depois da cabeça desencaixada tudo fica mais simples. fico com o cu e o pau. sim. o cu e o pau são importantes, conclui.

De fato, dado ao magnetismo e à naturalidade com que Linhares se expressa, surge a dúvida se o autor não estaria visitando suas memórias e as convertendo em ficção.

Sendo quase um todo do guri que odeia os almoços de domingo na casa da avó, do que adora a amiga da mãe que oferece bebida, do que frequenta as festinhas americanas, do que se entope de fandangos e coca, daquele que cabula aula para andar a esmo, fumar cigarros e desvir(ginar)tuar as filhas dos militarzões.

Linhares alcança tal fidedignidade ao se fazer observador nato do tema que conduz. O autor pratica um tratamento seco às tramas, levadas num ritmo acelerado que atropela a formalidade linguística, desrespeitando pontuações, hiperbolizando frases com o uso de onomatopeias, eliminando letras maiúsculas.

Com isso, a agressividade se emaranha pelo narrado, pela decifração da leitura, pela recorrência de um tempo morto que sempre triunfará sobre o presente.

A infância é a fase da vida da qual se sobrevive.

***

Livro: O cão mentecapto
Editora: Encrenca
Avaliação: Muito Bom

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VISLUMBRES DE UMA JUVENTUDE TRANSVIADA

O Cão Mentecapto é um retrato de violências, incertezas e descobertas, traduzido em estado de turbulência

o cão capa frente

 

A raiva e a revolta. A necessidade de tomar as rédeas da própria vida, de encontrar seu lugar no mundo e de ser notado. A excitação e o deslumbramento sexual. Todos esses sentimentos que afloram na juventude aparecem puros e pungentes em O “Cão Mentecapto” (Encrenca, 2017), terceiro livro de Otavio Linhares.

A obra faz parte da Trilogia da Turbulência, como a chama o escritor Luiz Felipe Leprevost, iniciada em 2013 com “Pancrácio” e seguida pelo “Esculpidor de Nuvens”, em 2015. Essa turbulência toma forma mais concreta em “O Cão”, pois nos 16 contos acompanhamos momentos de violência e descobertas, vistas e vividas a flor da pele por adolescentes.

Narrado do ponto de vista desses jovens, a falta de vírgulas e letras maiúsculas parece reforçar essa agitação, marcada por um fluxo incessante de informações. Em diversos momentos os personagens se perdem o foco em meio a divagações, que só percebemos que é inútil – ou não – depois de se passar uns 10 minutos com a porta da geladeira escancarada.

“[…] é como se viver em sociedade fosse um eterno reclamar de coisas senão não é sociedade família escola nem nenhum tipo de aglomeração de gente. turba em polvorosa. bacana essa palavra turba. lembra burca. polvorosa também é legal. lembra pólvora. burca e pólvora. Fecho a geladeira” – página 17.

E nessa brincadeira, não é só o narrador que se perde. Esses elementos, ou a falta deles, dão personalidade ao texto, porém complicam a leitura. É um livro para ser lido com atenção – não que existam livro que não necessitem de atenção, mas mais de uma vez foi preciso voltar em algum texto para garantir que tudo tinha sido entendido.

Outro ponto marcante da obra, são os momentos de grande violência como em “Cães Famintos”, que o jovem presencia o assassinato de um colega após um espancamento que “pintou o tapete de vermelho”, ou em “Linda demais” em que a filha mata o pai com uma navalha de barbear e “o sangue fica jorrando e encharcando a sala inteira”, são relatados com certa apatia.

Essa insensibilidade dos personagens frente as adversidades tornam o impacto dos fatos narrados mais fortes. O leitor se choca duplamente: pela descrição da cena e pela passividade com que o jovem lida com as situações. Em alguns momentos essa ingenuidade frente as questões tão sérias parecem surreais demais e contrastam com a descrição de cenas que fazem parte do cotidiano de muitos jovens.

Essa relação com o real é outa ferramenta muito bem utilizada por Linhares, para cativar o leitor. Muitas passagens geram uma identificação muito forte com as memórias do tempo do colégio. Um tanto clichês, mas não menos verossímeis. As festinhas da piazada, os relacionamentos entre os populares, garotas bonitas e os desajustados, a coca com fandangos de presunto, combinação que devo concordar com o autor é “obra da criação”, são lembranças de uma época que não volta mais.

O Cão Mentecapto usa e abusa de uma linguagem desbocada e sem censura que caracteriza a juventude rebelde e transviada. Em 127 páginas Linhares nos faz rir, chocar e rememorar um universo complexo, que perde o seu brilhantismo com o olhar do adulto.

O fato de despir-se do que não presta e não serve mais, narrado no primeiro conto que dá nome ao livro, sobrando apenas “cu e pau”, fonte dos “maiores prazeres”, parece prenunciar ao leitor de que o modo de vida, escolhido e iniciado na juventude, não tem volta. E, com a imprecisão do futuro, só o que sobra é o presente.

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Resenha: O cão mentecapto

por Jonatas Brito para GARIMPO LITERÁRIO 27/05/2017


Um regresso às agruras de uma das fases mais atribuladas da vida: a adolescência. Assim defino “O cão mentecapto”, último livro do escritor curitibano Otavio Linhares, lançado esse ano pelo selo independente Encrenca – Literatura de Invenção.

Através de seus 16 contos, podemos observar como o protagonista, um adolescente na casa dos 14 anos, lida com as descobertas e, principalmente, as frustrações tão características desse estágio da vida. Sem abrir mão da ironia ácida e da indiscrição tão peculiar à idade, o narrador evidencia-nos seu cotidiano de forma colérica, violenta e destrutiva. Tais relatos são narrados em ambientes adversos. Laços familiares destruídos, a descoberta da sexualidade, a influência negativa das más amizades e o envolvimento com drogas ilícitas permeiam todos os contos.

Alguns contos são capazes de chocar o leitor pela sua agressividade, pela exposição de violência gratuita e seu efeito danoso sobre aqueles que buscam encontrar-se neste universo caótico. Outros são narrados sob o efeito alucinógeno de narcóticos. Outros revelam o esforço do narrador em enturmar-se, ser visto, sair do anonimato. Assim, em meio a devaneios pubescentes e um acelerado fluxo de consciência, Otavio Linhares concebe uma obra que, em suas poucas páginas, oferece ao seu leitor um misto de sensações e emoções.

“são as estátuas de ninguém. esses bustos de praça são um embuste. mortos que insistem em sobreviver nas lembranças. foram os vivos que os colocaram ali. é. eu sei. paro na frente de um deles e grito você já era!”

Este livro encerra o que o poeta, também curitibano, Luiz Felipe Leprevost considera como a Trilogia da Turbulência, composta pelas outras obras de Otavio Linhares: “Pancrácio“ (Encrenca, 2013) e “O esculpidor de nuvens” (Encrenca, 2015). Cada livro aborda uma fase da vida. Sua trilogia finaliza, assim, o ciclo da existência: infância, adolescência e velhice.

O autor utiliza um estilo narrativo próprio. A isenção de vírgulas e maiúsculas nas orações proporciona ao leitor uma experiência literária inédita, viva e acentuada. Apesar da linguagem típica curitibana, a compreensão da narrativa flui facilmente. “O cão mentecapto” é tenso, poético e nostálgico. É uma obra original e sem comparações. Uma prova de que, neste país, ainda há espaço para a literatura contemporânea de qualidade.

Título: O cão mentecapto
Autor: Otavio Linhares
Editora: Arte e Letra
Selo: Encrenca – Literatura de Invenção
Ano: 2017
Páginas: 128

 

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