RSS

28/05/2012

Posted on
no final a árvore é grande, mas o que fica é o fruto.
 

28/05/2012

Posted on

‎”o prazer de estar no acaso”
(tirado de O Esculpidor de Nuvens)

28/05/2012

Posted on

o sol se pondo no horizonte
uma bomba atômica 
bem lá no fundo

27/05/2012

Posted on

destroi-te a ti mesmo

26/05/2012

Posted on

amanhã o sol nascerá azul

dentro de um sono lento
escombros
pedras em queda
em fendas abertas pelo mar
solitude invasiva

voltas
retornos
vento que transmuta a areia
furacão novamente o vento
amarelo pálido que some
vulto translúcido
tempestade de areia

20/05/2012

Posted on

to lou reed

hey love, I covered the body with pins
now we can play with your web
a cat bed
without leaving home
the weekend is yours
let’s drink the wine that flowed
naked and roll
inside the lawn
of your eyes snow

para lou reed

ei, amor, eu cobri o corpo com pregos
agora, podemos brincar com sua teia
uma cama de gato
sem sair de casa
o fim de semana é seu
vamos beber o vinho que jorrou
nus e rolar
pra dentro da relva
dos teus olhos nevados

20/05/2012

Posted on

e vocês estavam lá
prostrados à volta
os olhos voltados pra dentro
olhavam a relva crescendo
o limo nas pálpebras
pensavam que sim
sim, tudo vai bem

15/05/2012

Posted on

apreendo palavras
como quem tange o infinito
louco cego bailarino

um menino
que ainda sabe o gosto da chuva
mesmo com o abismo
sob seus pés

09/05/2012

Posted on

bão mesmo de comê, é de colhé.
garfo é bão pra se coçá.

El Baile de Los Locos

Posted on
El Baile de Los Locos

Ilustração de Daniel Gonçalves

- Nenhum lugar pra ir. Ninguém pra matar.
- Dia chato, né, man.
- E se a gente saísse por aí atrás de um pózinho mágico e de um pouco de diversão?
- Faz tempo que a gente não se diverte, hein?!
- Vamos dar uma voltinha, então.
Afirmativo como um macho no cio catei um punhado de balas de prata que estavam na primeira gaveta da mesa do escritório e meti no bolso do casaco. O Florestano sempre me disse pra nunca sair de casa sem elas, ainda mais em tempos de fim do mundo. Criaturas estranhas costumam sair às ruas nesses dias de apocalipse. Carreguei a Jéssica com as pontas ocas que tinham ali por cima. Meti a cobertura na cabeça. Fui dar uma mijada rápida e por acaso dei uma olhada no espelho do banheiro. Parecia que a velha cara não tinha mudado nada. Um pouco mais soturno e sábio, diria alguém que já morreu. Os olhos mais fundos e enfiados pra dentro do crânio, os lábios mais secos e duros, lembrando de longe o Clint Eastwood, mas com uma leve e destoante diferença: o sorriso tinha voltado aos dentes. Os velhos erros tinham ficado pra trás.
Lufus
Por um momento a imagem daquele velho safado passou pela mente. Alguns meses sem vê-lo e eu nunca tinha pensado na sua ausência. Talvez ele devesse voltar, talvez não deixe ele lá, man. Cocei o nariz. Chupei os dentes fazendo aquele barulhinho agudo e estridente. O ar passou fácil pelos buracos. Passei o pentinho vermelho na barba.
- Vamos, man. Você parece que vai fazer uma visita pra vovozinha.
Por que a Jéssy está sempre certa?
- Olha aqui, beibes. Um pouquinho de vaidade não vai maar ninguém, ok? Estou velho e isso parece bom.
- Humpf… Pra mim você continua o mesmo idiota engraçadinho de sempre!
- Hehe. Gosto quando você fala assim.
Ela sabe como me agradar. Sempre na medida certa. Um pouco mais de cinismo e ironia e ela seria um daqueles canas da ditadura que gostavam de bolinar criancinhas e correr atrás de meninos jovenzinhos vestidos com camisetas do partidão e fazer perguntas imbecis.
HAHAHAHA
Esse pensamento me fez soltar uma gargalhada animalesca. Gosto de imaginar aqueles cretinos torturando as pessoas, sendo machões em porões de prédios abandonados, no escurinho, longe das esposas e das crianças, e da família que vai perguntar no almoço de domingo como anda o trabalho, e o imbecil vai ter a cara de pau de dizer que anda tudo bem hahahahaha, que estão capturando inimigos da nação pelas ruas papai é um herói! Eu, o Flores e o Lopes poderíamos assá-los num sete de setembro enrolados em papel alumínio hahahahaha feito peixes com os olhos esbugalhados e a língua de fora pedindo perdão que do caralho, com a bandeira nacional sobre a mesa onde pingaríamos nossas babas e chuparíamos os ossinhos dos cretinos, e lógico, aos uivos, brindaríamos com sangue.
HAHAHAHA
- Seria bem divertido, né amores?!
- Claro, man. Claro que seria.
Ela diz isso rindo com o canto da boca como faz o Florestano. Mas com ela não me irrito. Nem com o Flores. É que com ele é diferente. A risada dele é sempre sinistra. Parece que esconde o real motivo de estar rindo você é sinistro, sabia disso, Boaventura?
- Será que dá preu tomar uma cerveja que tá na geladeira antes de sairmos?
- Por que não?
- Sei lá… bateu uma vontade de dar uma olhada pela janela…fumar um cigarro… olhando a Boca Maldita.
Acendo um cigarro e vou em direção à janela. Abro. Venta muito. Olho pra baixo e dá vontade de sair voando.
- Você ainda tem esperança.
- Não.
Não há nada pra se contemplar dali de cima. Só o barulho da noite.

Aperto com força o gargalo da garrafa e viro de um só gole a long neck. Descemos as escadarias do Edifício Asa e muitos barulhos preenchem o silêncio. Estupros. Violências veladas. Pequenos furtos de sensações que vazam por debaixo das portas. Dez andares de sinistros sentidos. No oito paro pra ouvir um velho gemendo de dor. Como se rastejasse do quarto ao banheiro em busca do remédio que vai fazer seu coração voltar a bater. Quinze segundos e o velho uiva baixinho como se lhe tivessem tirado algo. Encosto a mão na porta. Sinto a pulsação da cena. Eu poderia entrar e acabar com isso de uma vez. O sofrimento do homem não me interessa, não me priva de nada, quero apenas o quadro que foi pintado quando ele quase chegava ao banheiro. A mão dele estática sobre a tampa da privada. Os olhos de desterro. A Agonia, a bela deusa irmã da Morte. Pelo jeito ele queria mais uns dias aqui nesse inferno. No fundo alguém uiva. Desço. Gritos nos corredores. Muitas pessoas matam sem que saibamos. Tenho certeza que nos tapetes das portas de entrada o pó poderia nos contar o que houve. Mas já sabemos, não é mesmo? No íntimo já sabemos. Não há o que contar. No 202 uma mulher grita com uma criança. Sabe aqueles gritos? Aqueles gritos que nos forçam a desabar e com força descomunal resistimos até os joelhos estilhaçarem em pedaços? Como se gigantescos roloscompressosres fossem lentamente transformando o corpo numa massa escura e amorfa? A Jéssica se contorce. Por que ela sabe. Nessa hora não há lugar pra ir. A única saída é virar os olhos para dentro e criar um mundo novo. Algo explode dentro daquele apartamento. Consigo sentir. Corro em direção à porta e com um chute a arrombo. O apartamento está em chamas. Pela porta uma enxurrada de gatos foge para as escadas de emergência. A criança acuada por labaredas se esconde atrás do sofá, perto de uma mesa alta com um telefone. Estico o braço e a encosto. Ela me arranha. Os ferimentos vazam pus. Sorrimos um para o outro. Saio do apartamento e continuo descendo as escadas até chegar na portaria do prédio onde o piá da portaria abre as correspondências dos condôminos. Ele se masturba lendo uma carta escrita à mão. Não me nota. Não está nem aí. Vejo a rua por detrás da porta de vidro que nos separa da praça onde meninos jogam bola e saio correndo pra ver se ainda dá tempo de fugir. Seguro a porta que desaba sobre mim. Jogo-a de lado e piso o petit-pavé. Estou a salvo. Mais uma vez. De volta à selva que me acolhe.

Percorro a rua XV em direção a Monsenhor Celso. São duas da matina. Só zumbis saem a essa hora. Identifico uns quatro, cinco. Velhos conhecidos. Vendedores de almas. Já trabalhamos juntos. Me oferecem algumas, mas digo que não.
- Hoje não, amigo.
- Hoje vamos nos divertir.
- Mas eu tenho o que vocês querem, senhores.
Droga, não resisto.
- Então me dê três de uma vez.
Pego o que ele me dá. Vem num saco de pão escrito PRODUTO META-INDUSTRIALIZADO.
- Meta a putaquepariu!
Ela não se agüenta e faz um comentário ardido.
- Isso é sacanagem. Ninguém fica na XV até duas da matina pra vender esse tipo de porcaria.
- Relaxa, amorzão.
- Relaxa o caralho! Quero vê a hora que você abrir esse pacotinho e ver que se fudeu.
Coloco a mão dentro do pacote e um escorpião pica a ponta do meu dedo. Meu dedo apodrece e cai no chão. Me abaixo e o guardo dentro do saco. Enrolo o pacote, guardo no casaco, e continuo subindo a rua. Pessoas sintomáticas caminham de mãos dadas. Procuram pedras no vão das pedras. Lá na frente um brilho. A Catedral de Curitiba. Centenas de pessoas à sua frente rezando alto. Gritam. Berram. Esperneiam. Deus ri.
- Que que tá rolando?
Um mendigo ri.
Pego o homem pelo pescoço e suas veias saltam pra fora feito tentáculos. Seus olhos enchem de piche e ele começa a vomitar sanglava. Deixo-o ali caído e afundo o pé na terra para entender.
Nada.
Então, vejo um velho conhecido descendo a rua com as mãos no bolso. Ele me reconhece e conversamos um pouco sobre o de sempre. Ele me conta que ainda há esperança e que posso ficar tranqüilo com relação aos acontecimentos presentes que, segundo o rádio, nada de mal vai nos acontecer se permanecemos unidos.
- Amém.
- Oxalá.
Nessa hora tenho vontade de aspirar todo o ar a minha volta e o faço. Os que rezam tombam. O brilho cessa. É a dor de ter contraído uma doença incurável.
- Largue isso!
É uma velha mania que eu tenho, a de obedecê-la. Então obedeço.

Por cinco minutos ficamos em silêncio profundo. Então abrimos os olhos e nos beijamos. O gosto metálico e frio da sua boca me congela e me penetra. Não vejo mais o futuro. Só a música que paira sobre nós. Uma música feita por artesãos hábeis que se movem na velocidade da luz e nos invadem pelas unhas, por isso perdemos os controles das mãos e agimos feito bestas indomáveis por anos a fio.
- Man! Atrás de nós! Corre! Rápido!
Dobramos sete esquinas seguidas feito nós cegos, sem parar de correr, até que uma moça nos pede informação. Isso nos acorda por um instante. Estamos na esquina da Cruz Machado com a Ermelino de Leão. Sentimos a Encruzilhada como parte do nosso projeto genético. A música nos percorre e nos deixa mudos. Um desejo insaciável aflora. Saco a Jéssica. Movimento de luz. Indescritível prazer. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes aperto o gatilho e deixo transpirar a vontade. O suor inunda o asfalto. Oito faces partidas com os machados das pontas ocas dos projéteis de prata.
HAHAHAHAHA
- Quer saber que música toca entre um pensamento e outro?
HAHAHAHAHA
Deixemos o riso tomar conta desses últimos milésimos antes que partamos.

Detetive Linhares

com o punho a socos no acostamento

Posted on

mãos machucadas
pés cheios de calos
eu me acidentei
joelhos
cotovelos
o corpo inteiro sangra

. .

no banheiro não mais barbeadores
cotonetes de algodão
não, não existem
perfumes, protetor solar, cremes, esparadrapos
não, não existe remédio

. .

a gaiola aberta
sem pássaros
feito uma torradeira que pifou
e o liquificador pifou
o café com coca pifou
a lata de lata pifou e zuniu
espirrou na parede do quarto descascando

.chove demais aqui dentro cinza.

quadros e retratos em cima da cama que mudou de lugar quatro vezes
agora eu durmo em qualquer lugar às vezes

.sem dormir.

é domingo e o dia é santo
completamente santo
não há mais ninguém
prum drink, pro papo furado
uma estória de casal triste que ainda não se conhece
porque casais devem se conhecer
para apenas procriar
não mais o humano
só a água do buraco no céu de estrelaspontos-de-luz
e uma lua coberta de nuvens
de uma longa óperafunk que será escrita
the moon is covered by the clouds

.descansar.

fechar os olhos e descansar
e fazer amor pela primeira vez
e se abortar no mundo mais uma vez
entrar e explodir
o mundo mais uma vez
pela primeira vez

Festival de Teatro de Curitiba 2012

Posted on

Fotografia de Olívia D'Agnoluzzo

A dupla Alexandre França e Otavio Linhares funciona muito bem, obrigado. Depois de 90 dias de ensaios colocamos no palco o monólogo SALIVA e ao contrário de tudo o que imaginávamos, o público gostou, e a crítica fez vários apontamentos sobre o ator, a luz, o texto e a direção. Mesmo sabendo que a linguagem da peça não corroborava com as expectativas normais do público (não todo o público, mas a cultura do arrebatamento que paira sobre a sociedade) recebemos excelentes retornos do nosso trabalho.
Obrigado a todos, sem exceções.

Abaixo um trecho da matéria que saiu n’O GLOBO, do Rio de Janeiro, e na GAZETA DO POVO, aqui de Curitiba.

Fotografia de Olívia D'Agnoluzzo

O GLOBO, domingo, 08/04/2012
Festival de Curitiba termina hoje sob reclamações e críticas locais

(…)
É em relação a essa última linha que uma crítica se estabelece. Um dos polos mais inventivos da cena nacional, Curitiba viu sua nova safra autoral fora da mostra principal pelo quinto ano seguido. Coube à mostra Novos Repertórios reunir novas criações locais, como “Saliva”, de Alexandre França, e “Darwin”, dirigida por Fábio Salvatti.

— A nova dramaturgia da cidade é mais reconhecida fora de Curitiba. Por que não celebrar essa geração? — questiona França. — A mostra oficial, que é a mais assistida, não traz os nomes que estão trabalhando por um teatro de ponta. Não há preocupação em acompanhar os novos caminhos que os artistas locais traçam. Há, sim, preocupação financeira, voltada para o turismo. É um festival mais feito por especialistas em marketing do que por amantes do teatro.
(…)

a matéria completa você encontra no link abaixo:
http://oglobo.globo.com/cultura/festival-de-curitiba-termina-hoje-sob-reclamacoes-criticas-locais-4520229

 

Fotografia de Olívia D'Agnoluzzo

GAZETA DO POVO, domingo, 08/04/2012, Helena Carnieri
Festival consagra Cia. Brasileira

(…)
Entre as avaliações, sobrou espaço para mais curitibanos, como destaca José Cetra, colaborador do site Dramaturgia Contemporânea. Em Saliva, com direção de Alexandre França, ele diz ter visto a “melhor interpretação” do festival na atuação de Otavio Linhares.
(…)

a matéria completa você encontra no link abaixo:
http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/festivaldecuritiba/conteudo.phtml?tl=1&id=1242022&tit=Festival-consagra-Cia-Brasileira

a ponta do dedo carcomida com fome voraz pelos dentes loquazes

Posted on

lava gotejando
asséptico sentido
músculos à flor da pele

as unhas arrancadas
breve levitar

o invólucro gane
invoca perdão
ajoelha

as mãos prostradas imploram
o corpo já sem sentidos
resta

a língua pura saliva
sobre o cascalho da horta fecunda
vive

para Ericson Pires (que eu não conheci em vida)

Posted on

não quero que morram por mim
nem que derrubem lágrimas
meus próprios fanatismos já me bastaram
hoje não tenho mais invólucro

nunca tive fantasmas
nem espantos em demasia
se chorei foi por causa de uma briga
uns tabefes entre amigos
essas típicas coisas da alegria

liberto, quase morri setecentas mil vezes
mas sempre tive por perto um ou outro
que às vezes, também encostado
tinha a coragem e a diletância
de me desafiar prum box
um bacanal, pruma orgia

nada nunca foi normal
não acreditei em nada que fosse mais estúpido
que a própria estupidez de me ouvir calado
e falar sobre o já-sabido
e eregir montanhas de pó

um lobo que devora a matilha
e se une a outros da mesma espécie

Blog LAMA Rodada 2

Posted on

A defunta lésbica que acabou com o romance das caveiras
Ilustração: Frede Tizzot
Texto: Luiz Andrioli, Alvarenga e Ranchinho

Ilustração do Frede Marés Tizzot

Eram duas caveiras que se amavam. E à meia noite, na ladeira do Largo da Ordem, se encontravam. E juras de amor então trocavam. Abraçadas as duas em riba das pedras frias, a Caveira apaixonada dizia que de tesão por ele vivia; e o Caveiro falava que de desejo pela outra morria.
Mas um dia chegou de pé junto, uma gordinha nova no Cemitério Municipal. Cabeleireira, trabalhava na André de Barros, ao lado do Terminal do Guadalupe. Cortava cabelos das crentes que vendiam as madeixas para fazer perucas. A cada comissão que ganhava, corria até a distribuidora de doces para comprar uma bandeja de teta de nega. Comia os doces de noite em casa. Em um sábado exagerou. Mandou pra dentro de suas fartas carnes ainda mais duas porções de corações de abóbora doce e uns oito sorvetinhos de maria-mole. “Teve uma doce despedida”, disse o pastor no discurso à beira do caixão.
Poucos sabiam que a Gordinha guardava em baixo da cama uma coleção de postais com fotos antigas de modelos nuas. Pela noite, deitada, ela se masturbava com os retratos espalhados sobre a colcha de patchwork. Na boca ainda o gosto açucarado da tarde.
Morta, passeando pelos corredores do Cemitério Municipal, a gordinha topou com a foto da caveira em um mausoléu. Foi paixão à primeira vista. Estava ali o sentido da sua morte recém- assumida. Era sábado, o carnaval estava próximo e ao fundo era possível de se ouvir o arranhar de algumas cuícas nos botecos do São Francisco. O coração da gordinha até sambaria, não tivesse morto. “Mas os mortos também amam”, pensou. Embalada por este novo sentimento, procurou sua lápide para deitar. Tinha decidido que procuraria a caveira-metade já no domingo.
A gordinha passou a primeira noite olhando a Lua nova que brindava o cemitério. Chegou ao êxtase sentindo o corpo sem a vida que conhecia, mas cheio de uma nova energia despertada pela paixão. Gozou com um novo doce na boca: a imagem da Caveira.
Acordou tarde. Saiu pelo portão do Cemitério com a certeza de que voltaria de braços dados com sua nova paixão. Andou até o Largo da Ordem e encontrou uma festa já nas ruas próximas. Seguiu no ritmo do bloco. Uma multidão descia a ladeira a partir da Sociedade Garibaldi. Uma festa de pré-carnaval que, a bem da verdade, pouco interessava para a gordinha. Ela sambava junto com o ritmo desajeitado dos curitibanos apenas para procurar seu amor. Girava o corpo, curtia a malevolência, jogava seu olhar por todos os cantos procurando a dona da foto da lápide que vira na noite anterior.
De cima do trio elétrico, o vocalista puxou animado um “ó quanto riso, ó quanta alegria. Mais de mil palhaços no salão…”. Foi quando a gordinha falecida encontrou a Caveira. Ela estava abraçada ao Caveiro, trocando suas juras de amor. Por um momento a recém-falecida apaixonada pensou em desistir. Mas logo se fez de faceirinha na frente do casal. Puxou para seus pés toda a sensualidade dos seus sonhos doces e sambou. Como se fosse um roteiro desenhado, a Caveira percebeu o apelo e soltou do abraço até então imortal. A Caveira se encantara pelo samba fresquinho de quem acabara de morrer.
Toda a multidão de foliões descia o Largo da Ordem sem perceber o amor que acabara de nascer para a imortalidade. A mais nova encantada seguiu na cadência daquela defunta ainda cheirando vida atrás do trio elétrico. O Caveiro abandonado sentiu um aperto grande no vazio do seu peito onde no passado ficava o coração. Sem que o vendedor de coco percebesse, tomou o facão que estava em cima do isopor e cravou no vazio de suas vísceras. Morreu pela segunda e última vez. Foi por amor. Foi por desejo. Só por causa daquela ingrata Caveira que trocou ele por uma defunta lésbica.
A gordinha e a Caveira ficaram para trás da multidão e do trio elétrico. Elas se beijaram em tom funébre. Ao longe uma coruja cantava alegre e batendo as asas pedia bis.

27/02/2012

Posted on

para Olívia

A mulher mais linda que eu conheço
Tem a cabeça cheia de idéias
Os olhos de jabuticaba
A boca grande e um sorriso largo
Os cabelos leves ao vento
Braços fortes de infinitos abraços
Mãos carinhosas
O colo de ninar
A barriga de criança
O ventre de mulher
As pernas de bailarina
E os pés de me dançar

A mulher mais linda que eu conheço
Canta coisas de dormir
Faz poemas de chorar
Diz que sabe o que não aprendeu
Faz do barro um castelo
Do vento uma sinfonia
Das palavras uma estória
Das estrelas um colar

A mulher mais linda que eu conheço
Se parece com uma rosa
Ri da vida amiúde
Sabe cor e salteado
Um milhão de poesias
Faz careta quando dorme
Coça a orelha de vergonha
Sai na chuva de tardinha
E ainda voa como nuvem

À mulher mais linda que eu conheço
Eu dedico esse poema
Mesmo que ela se oponha
Não saiba ou não exista
Porque de dentro de mim
De dentro do meu peito
Saiu esse versinho
Sem rima, sem metro
Sem vergonha

um verme que se autodevora (título provisório), segunda parte

Posted on

na verdade, alguns desavisados foram até o camarim e tiveram a grata surpresa de não encontrar ninguém, o que gerou, veja só, a sábia pergunta que não queria calar diante do mistério que ali se instaurara: estão gozando da nossa cara? o diretor, que parece ter sido visto na cabine ao fundo do teatro executando a luz, parca, diga-se de passagem, como uma senhora se referiu a iluminação criada com tanto esmero por uma amiga da companhia, não consegui ver a cara do ator, no que a amiga rebateu, se é que era ator, você ouviu aquela voz? parecia um bicho com fome, de fato as velhinhas queriam ver o brilho nos olhos do ator, se é que era ator, porque agora até eu não sei mais de quem era aquela voz, ou até mesmo, segundo o rapaz que fumava com a namorada do lado de fora, já na calçada, será que havia mesmo um ator em cena? grata pergunta, pois segundo depoimento que o diretor deu, que como eu esqueci de falar, sumiu logo após a encenação, uma semana antes enquanto divulgava o espetáculo pelos cafés do centro, o cartaz não tem nomes porque não sabemos se teremos atores, e todos riram, é óbvio, ninguém mais caía na conversa fiada daquele quarentão que tinha mais quilometragem de teatro que urubu de vôo. já estavam todos cansados daquelas coisas bizarras que ele inventava, com bichos no palco, gente deformada, substâncias químicas, sim, porque há alguns anos ele borrifou um odorizador de ar contaminado com anfetamina no interior do teatro inteiro pra ver se a platéia acessava um outro canal enquanto assistia à peça. idéia maluca, foi o que o ator principal disse na época e, particularmente, não sei se funcionou, mas no dia seguinte foi sucesso de capa em todos os jornais e telejornais e rádios e programas sensacionalistas. ele chegou até a dar entrevista para um jornal do rio de janeiro, o que acabou gerando um contrato com um teatro de lá para curta-temporada, mas que fracassou devido ao uso de substâncias ilícitas em público, segundo relatou o sargento de plantão. é óbvio que não deixariam a coisa acontecer. sempre haverá mais censores de plantão pra cortar-lhe as asas, do que para ajudá-lo a voar. conclusão: um processo, um mês em casa, cesta básica pra todo mundo, e uma multa que no final pôde ser parcelada em trinta e seis meses. depois, me contaram que ele não mexeu mais com coisas desse gênero, mas que não tinha desistido de continuar com suas experimentações. há alguns meses ele havia chamado todos os participantes da companhia para uma reunião extraordinária, para avisar que, agora nossas obras serão catapultadas através de sons e sensações produzidas pelo próprio corpo, não ver o ator, e nem saber se ele existe, não importa. o negócio é reagir às sensações produzidas pelo espaço, que é o corpo, e pelo espaço que é ele próprio. interação platéia-espaço, porque é tudo a mesma coisa. tudo vibra na mesma freqüência, por isso reage e produz a grande interrogação que habita o mistério. a raiva com que alguns saíam do teatro era o resultado que tanto nos combalia a continuar. nunca nos fascinou, veja, estou falando nós porque entrei pra companhia há poucos meses apenas para documentar tudo o que acontece e fazer um filme, mas já me sinto parte dessa estrutura, nunca nos fascinou as lágrimas, ou os sorrisos, ou a pasmaceira coletiva a que estávamos acostumados a ver. queríamos mais, tanto que tirar o ator de cena foi uma das ideias mais surpreendentes que vi alguém ter em teatro. mas o próprio ator, ainda com um pé na vaidade e outro no orgulho, quis ficar no palco e não abriu mão de sua aparição em cena. então, pensamos, porque não… torná-lo uma aparição. maravilha! latiu lá da última fila do teatro o diretor que estava escondido só de butuca no papinho que rolava entre o ator e a equipe técnica, que discutiam quais varas de luz deveriam ser usadas. e ele veio lá de cima batendo os pés na madeira da escada lateral e esfregando as mãos por causa do frio, ou porque tinha tido uma idéia sensacional. será uma aparição! e o entusiasmo dele contaminou a todos naquele momento. sua voz sairá de um gravador e colocaremos um fone de ouvido em cada espectador, e haverá um texto para cada um. então, teremos tantas peças de teatro quantos forem os espectadores? essa pergunta da produtora, já preocupada em quanto teria de arrecadar para dar conta de tantos fones de ouvido, não teve resposta porque nessa hora o nosso diretor já andava de um lado para o outro do palco gesticulando e babando e se contradizendo a cada instante. então todos saíram dalí e foram até a cozinha do teatro tomar um café, e esperar o delírio dele acabar.

feito mercúrio

Posted on

para uma ilustração de Daniel Gonçalves

me debruço sobre a janela
tudo o que consigo denotar são imagens
pegadas que foram deixadas numa caixa de vidro com água transbordando
o corpo em formato de concha
os cabelos caindo por sobre a cabeça
não dá pra ver meus olhos tocando as pontas dos dedos e se raspando
fazendo barulho de areia se esfregando
e desmanchando no chão
feito mercúrio os pedaços se agarram
e se agarrando vão escoar por buracos
pingar sobre nossas cabeçasestáticas
que debaixo de guardachuvas metálicos se inundam
simplórias e cinzas
e o corpo se grisalha todo
mesclando-se às pedras da calçada
pouco a pouco afundando
passo a passo chão adentro
um atrás do outro
em buracos distintos
pra baixo da terra
como sangue contaminado entrando na veia

um verme que se autodevora (título provisório)

Posted on

“não passar de uma fraude má-intelectualizada de si próprio é o mesmo que verter sonhos sobre outrem e ainda ter expectativas”. essa foi a última fala que ecoou nos ouvidos de toda a platéia antes do blackout fechar a encenação e todos se absterem de palmas. absortos, os expectadores ainda ficaram alguns minutos em silêncio antes de começarem a se levantar. alguns ensaiaram aplausos, outros vaias, outros ainda, um pequeno silêncio. quando a luz verteu sobre o palco, todos notaram atônitos que o mesmo estava vazio, mas isso era praxe, não sei porque essa cara, e ninguém se atreveu a ir ao camarim dar um abraço, ou um cumprimento dizendo-se arrebatado, ou coisa que o valha, e também nem o ator, ou algum representante da companhia teatral, apareceu para dar satisfações sobre o fim daquele negócio, como chamou o crítico do periódico no dia seguinte, ou para avisar a alguns desavisados que eles poderiam se levantar e simplesmente ir embora, e que condolências deveriam ser deixadas para o bar, ou para o próximo trombão no calçadão da rua XV. era, na verdade, um espetáculo experimental, mas parece que nem todos sabiam disso, porque o teatro era chique e alguns chiques aparecem de sopetão vez ou outra para assistir espetáculos teatrais nos fins de semana, acompanhados da família inteira, e têm esperanças e expectativas, e querem ser arrebatados, e chorar, e aplaudir, e ganhar abraços, e poder dizer, ao menos ali: me sinto tão viva (o). talvez, isso nos faça esquecer da vida espasmódica e enfadonha, chata pra cacete, quero dizer, que talvez levamos longe das cadeiras estofadas das salas de teatro e cinema, como se a ilusão-real a qual somos submetidos durante pouco menos de uma hora nos ajudasse a produzir uma imagem bem mais legal de como as coisas do mundo possam ser. talvez, por isso, a perplexidade de alguns, o comichão de outros, e a crítica de terceiros. na verdade, nada demais.

(continua)

Blog LAMA Rodada 2

Posted on

Ó, quanta alegria…

Ilustração: Haydee Uekubo
Texto: Diego Fortes

Ilustração de Haydee Uekubo

- Que coisa ridícula! Carnaval não me vai muito bem. É sempre assim. Essa alegria toda me põe no meu humor mais suicida, mas enfim… Lá estava eu no meio daquele salão de um importante e prestigiado clube social da cidade. A pegada desses bailes de carnaval de clubes é você permanecer o maior tempo possível na festa. Começo de festa é sempre bonitinho: as pessoas com o banho recém-tomado, cheirosas, alegres, a roupa impecável e sóbrias, principalmente. Lá pelas tantas, os sócios mais velhos – saudosos de seus antigos bailes em clubes – não resistem ao sono e se retiram. Aí, é que a coisa fica interessante. A “ala jovem” dos associados, já órfãos e com acesso à bebida, à música e a uns aos outros, fazem o inferno.

- Aceita? Passou um garçom com uma bandeja de Black Label. Ah, vamos começar a noite, não é? – bobocamente disse a ele enquanto o gelo caía no copo. Fiquei com aquela risadinha boba na cara enquanto ele se afastava de mim, certamente, me desprezando. O que que eu estava fazendo? Já estava tentando me por num humor mais alegrinho só porque estava num baile de carnaval… Eu mesmo me desprezei naquele instante. Larga de ser bobo, Strike! Sempre penso nos garçons quando eu bebo. Deve ser duro não poder beber no trabalho. No meu ramo de atuação, beber faz parte do trabalho. Olhei para o bar (open bar!) e vi o que me aguardava aquela noite: as garrafas de uísque enfileiradas na prateleira atrás do bartender eram como lingotes de ouro em exposição para colonizadores lusitanos. Ouro e índias… Ê, carnaval! Que fossa…

- Adeus! – ela me disse. Como adeus? Onde é que você está indo? E quem é que fala ‘adeus’? – eu disse. Tá vendo? É isso o que eu não aguento mais! Você me retrucando, me corrigindo, me censurando! – ela disse. É que ‘adeus’… Eu achei engraçado… quer dizer, engraçado não é a palavra ideal… – eu disse. Foda-se a palavra ideal, seu cretino! Eu tô indo embora e você acha engraçado eu dizer ‘adeus’? – ela disse. É que não foi a palavr… – eu tentei dizer, mas ela não deixou. – Não fala que não era a palavra ideal! E se não for a palavra ideal? E se eu quiser trocar todas as palavras? Hein? E se eu fizer minhas malas, te olhar na cara chorando como eu estou agora e te disser: “Cachimbo, Lucky!”, será que você não vai entender o que está se passando?!? – ela esbravejou. Houve um momento de grande vacilo antes de eu dizer alguma coisa, justo naquele momento crítico em que as palavras se amotinaram e estavam mordendo a minha bunda. As frases passavam na minha mente quase como numa prova de múltipla escolha e todas elas pareciam insuficientes ou equivocadas. Não sei se foi por falta ou excesso de palavras que eu perdi Melinda. A chave caiu da fechadura quando ela bateu a porta ao sair. Fui juntá-la do chão e já fiquei ali pelo chão mesmo.

- Strike falando! – tão logo saía do hotel de Analu, liguei para meu cliente. Como a situação de detetives particulares não está das melhores, quando ligo para alguém, uso a estratégia do ‘toquezinho’: você liga, espera chamar uma ou duas vezes e fica esperando a pessoa retornar. Não é das coisas que eu mais orgulho em fazer, mas pelo menos não é tão deselegante quanto ligar a cobrar. Você me ligou… – ele disse, num misto de pergunta e constatação. Sim, claro. Precisamos nos encontrar, tenho informações sobre as pessoas que estão lhe chantageando – adiantei. Hoje eu não posso, rapaz. Tenho um baile do clube pra ir – me disse com certa preguiça na voz. Não faz mal, eu posso lhe encontrar lá mesmo. Deixe um convite no meu nome na portaria e eu prometo ser bem discreto. – disse eu aparentando urgência, quando, na verdade, me interessava o baile. Não gosto de carnaval, mas open bar é open bar!

- “Alalaôôô…” Mas que calor do caralho! São tempos difíceis esses de verão. Há que se ser muito criativo para se manter elegante nesses dias abafados. Não abro mão do terno nem da gravata. A solução está na escolha de cores mais claras – o que nem sempre combina com a minha constituição pálida, mas fazer o quê? As senhoras e os senhores da sociedade curitibana estavam muito elegantes em suas roupas sociais e vestindo máscaras que combinavam com a cor da camisa dos homens ou dos vestidos das mulheres. A “ala jovem” estava como o diabo gosta. Não havia uma só garota sem o umbigo de fora – não que eu estivesse reclamando, obviamente. O uísque estava me esquentando ainda mais. Pequenas gotinhas de transpiração se acumulavam na borda de cima da minha máscara de pierrô tristonho e desciam pela falsa lágrima desenhada.

- “A pipa do vovô não sobe mais…” Uma atrás da outra, as marchinhas desfilavam pelo baile. As pessoas adoram ouvir as mesmas músicas, não é mesmo? Já no terceiro uísque, avistei meu cliente ao longe. Estava usando um chapéu-panamá como se isso fosse algum tipo de fantasia. Trazia a esposa que não poderia saber dos meus serviços para o marido dela, que estava sendo chantageado por uma gangue de lixeiros para não revelarem que ele havia contratado uma prostituta há algumas semanas. Fiz apenas um sinal indicando o bar.

- “Se você fosse sincera…” Seguinte: estamos lidando com algo um pouquinho maior do que imaginávamos. – alertei eu. O quê?!? – berrou ele. O barulho de marchinhas e pessoas falando era ensurdecedor. É uma gangue! – gritei eu. Uma gangue? – perguntou ele. É! Eles coletam provas contra as pessoas nos sacos de lixo! – expliquei eu. Lixo?!? – estarreceu ele. É! Lixo! Ainda não sei se a Naomi Sueli trabalha com eles ou não. – disse eu. Quem? – confundiu-se ele. A Naomi Sueli – repeti. Quem? – ele, ainda sem entender. A puta!!! – esclareci eu, no exato momento que a banda parou. O meu ‘puta’ gritado chamou a atenção de todos que estavam por perto.

- “O teu cabelo não nega, mulata…” Entre todos os olhos virados para nós naquele momento, identifiquei um par que me parecia familiar. Seria ela? Não consigo ver. Saiam da frente! Ela se afasta transtornada, mas é ela. É Naomi Sueli! A própria! Vestida de Chapeuzinho Vermelho. Meu cliente, entre confuso e assustado, sai de perto de mim e procura sua esposa na multidão. Eu vou atrás da puta. Muitas pessoas me acotovelando, alguns dos adolescente já dando os primeiros sinais de embriaguez, braços molhados manchavam meu paletó creme, confete e serpentina para todo lado. Era ela. Cadê? Dá pra dar uma licencinha? Vejo ela passando do outro do salão, não acredito que eu vou ter que passar por esse povo todo de novo… Com licença, com licença. Piso no pé de alguém. Desculpa. Tá meio apertadinho aqui, né? (eu de novo com o sorriso boboca, que merda) Cadê essa porra dessa puta?

- “Chiquita bacana lá da Martinica…” O que ela estaria fazendo aqui no clube? Será que ela está fugindo de mim? Como ela sabe como eu me pareço? Será que como a Analu, ela veio para me eliminar? Em meio às dúvidas, pisões e confete na boca, para, exatamente na minha frente, ela. Fica parada me olhando como um dia eu fiquei parado olhando para ela. Melinda. Pronunciei seu nome quase sem emitir som. Olá, Lucky. Tá tudo bem? – me sorriu. Muitas frases se enfileirando para serem escolhidas: “Tá tudo bem? Que pergunta é essa? Sabia que eu durmo mal até hoje com saudades suas!” ou “Vá se fuder, sua cadela! Me abandona daquele jeito e agora vem com sorrisinho? Suma da minha frente!” ou “Agora sim! Agora tá tudo bem porque você tá na minha frente e eu posso te abraçar. Eu te amo, Melinda! Me agarre e não me solte nunca mais!”, mas o que saiu mesmo foi: “Oi. Tudo bem? E você? Que surpresa!” Pois é, surpresa mesmo – disse ela. Você está aqui com alguém? – deixei escapar. Sim. Vim com umas amigas, nós combinamos de vir todas como personagens do Harry Potter – disse ela vestida de colegial com um cachecol colorido enrolado no pescoço, nada que atrapalhasse a vista do decote, é claro.

- “Nosso amor passou, eu sei. No princípio eu não quis acreditar. Chorei…” Lembro-me muito bem daquele decote. Aqueles seios generosos dos quais já fui devoto. Tava pensando em você esses tempos… – reticenciou Melinda. Ah, é? “Não tem um dia que passe que eu não penso em você!” – contive eu que só disse o ‘ah, é?’ mesmo. Você não quer sentar? A gente toma alguma coisa – convidou ela. Pode ser. Eu só preciso de um minuto, tudo bem? Tudo – sorriu como só ela sorri. Me desconcentrei completamente com Melinda e seu saudoso decote. Saí do salão em busca da Chapeuzinho e não encontrei mais nada. Se ela estava fugindo de mim, já deveria estar longe. Tanto melhor que eu voltasse para o salão, para Melinda e quem sabe para o decote. A “ala jovem” já começava a ousar desvairadamente em saídas fortuitas pelos jardins próximos ao grande salão de festas. Ao voltar, não encontrei Melinda. Pensei que talvez pudesse ter ido ao banheiro e esperei junto ao bar tomando outro uísque. Esperei… esperei… e nada… Estranho… Toca o telefone. É o cliente. Diz que eu tenho que ir até sua casa urgentemente.

- “Ei, você aí, me dá um dinheiro aí…” Chego na frente do prédio do cliente e dou um “toquezinho” no seu celular. Ele abre o portão da garagem e eu subo pela escada de emergência. O cliente abre a porta mais branco do que um fantasma. Ouço a voz da sua esposa. Sua esposa está aí? Está – diz ele. E o que eu digo se ela perguntar quem eu sou? A verdade. É um pouco tarde para eu manter a mentira – ele escancara a porta e aponta para o corpo nu de Naomi Sueli estirado no meio da sua sala-de-estar. Junto ao corpo, um bilhete de letrinhas recortadas de autoria da G.L.A.C. (Gangue dos Lixeiros Anônimos de Curitiba) dizendo que não estão de brincadeira e pedindo ainda mais dinheiro. Eu estou arruinado! Pra pagar o que eles querem, eu vou ter que vender tudo o que eu tenho, eu vou perder minha empresa, eu vou ter que fazer um empréstimo, minha reputação irá para o lixo, eu… Fui virando as costas e o deixei falando sozinho. Precisava me concentrar agora.

- “Chegou a turma do funil, todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto…” Volto ainda para o clube. Volto e vejo os casais já se acabando nos jardins. Volto na esperança vazia de reencontrar Melinda e pela necessidade de tomar mais um drinque – vamos para aquele open bar! E agora, cavalheiro? Uísque escocês? Uísque americano? Vodka russa? – ofereceu o bartender. Me veja aí uma lapada, irmão! Que hoje eu quero ver se eu me esqueço!

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.